Quando cheguei a Belinho
Meu peito desfez-se em loas.
Linho de neve, branquinho,
Todo cheiroso a gamboas...

Meu Loiro, dize quem passa,
Mesmo que seja a Rainha.
Eu quero tossir por graça,
Aquela tosse que eu tinha...

Lua, rodinha de prata.
Nossa Senhora a brincar...
A tosse que a todos mata
A mim não pôde matar.

Soldado que vais à guerra,
Se lá ficaste, não digas.
Suor de mortos emperra
A viola das cantigas.

Foste cometa na França,
Lá morreste em tambor-mor.
Quem te mandou ser criança?
Eu fiquei e foi melhor.

Botei-te de longe as falas,
Orações de bem—morrer...
Muito mais longe que as balas
Vai o papel de escrever.

Meu Portugal Doentinho,
Cinco chagas no pendão,
Vai viver para Belínho
Se queres ter um vidão.

Roupa de neve, branquinha,
Arcas de sândalo e prata;
Enfermeira manhãzinha,
A Lua por açafata...

Os pobrezinhos da rua
Tantos piolhos que têm!
Não há pobreza tão nua
Que a outra não faça bem.

Micróbio, pequeno santo,
Ninguém te chame ruim.
Nosso Senhor deu-te tanto
Que me sustentas a mim.

E vou cantando o país
E para o povo trabalho.
Nosso Senhor em petiz
Só comia açorda de alho...

Toda a gente foi na onda.
Portugal deu-me a palavra.
Cantam os ranchos da monda
Os versos da minha lavra.

O dinheiro é pão com mel.
Humildade é desfastio.
Ganhar o Prémio Nobel
É cantar ao desafio...

Nem «Maranas» nem «Belkisses»,
Coisas que o Povo não leu.
Ó País das pieguices,
O teu Poeta sou eu!

Pascoaes é muito escuro,
O Eugénio encarniçado.
São plantas ruins do muro
Branquinho do meu eirado.

Meu Belinho de aconchegos,
Meu lar tão morno e tão lindo:
Eu sou irmão dos borregos
Que vão mamando e balindo.

O chá quentinho no bule
Não é bênção de enjeitar.
Mal haja o Rei de Thule
Que deitou a taça ao mar.

Há quem traga por enfeite
O marfim da minha cor.
Amarelinho é o azeite
E arde por Nosso Senhor.


[919-1920]

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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