[I]
A sala das piscinas silenciosas

«Fui outrora, a janelas para longe,
A princesa sonhada dos poetas...
Desenhou-me em recato um triste monge
Num livro beige de grandes letras pretas...

Desenhou-me profana e medieval
E depois, vendo quem me desenhara,
Alterou minha forma marginal
Para uma santa que só a Deus amara.
 
E eu hoje num missal sou meu disfarce...
Rezam meus olhos e eu não rezo ali...
Ninguém suspeita sob a minha face
A princesa de outrora que sorri...

Assim ao lado de orações latinas,
Falsa passo a irreal vida tristonha
E espero a hora em que Deus leia as sinas
E eu volte a ser a Princesa que sonha…»


II
[A sala dos reposteiros negros]

Não sei onde, encontrei por um caminho,
Numa floresta longe do passado
Cavaleiros errantes dum condado
A não sei que reinado meu vizinho.

Vi-os passar, e havia nos seus gestos
(Caminhavam longínqua e tristemente)
O fim da minha vida lenta e doente
E a minha sorte finda entre doestos...

Passaram, e eu fiquei pelo invisível
Caminho atrás de árvores e ruídos,
Como um ser consciente e sem sentidos..
Uma alma que sente e é insensível

Fiquei... e ao longe as vozes continuaram
Contando vaga história comezinha
Que, p’lo som das vozes, era a minha...
Quem sou eu? Eles sabem — e pararam.


III
A sala do trono carcomido


Lembro-me, mas não para vê-lo,
O castelo que havia ao pé da praia...
Eu descia do vulto do castelo
E vinha ver o mar chegar-me à saia...

As garras rápidas da espuma, os gestos
Que me agarravam, musicais e chiando,
Davam-me pensamentos desonestos
De ir para londe e de sofrer

E nunca foi mais dias minha vida...
Nunca me aconteceu mais do que o mar...
Agora choro a solidão perdida
E tenho pena de quem tem de amar.

Agora sou aquela que é esquecida
E todos querem, mas em vão, lembrar...


IV
[A sala] dos leões de bronze


Todos os dias lhes passava à porta
Silencioso, o vulto do mendigo...
E isto era à hora anoitecida e morta
Em que arrefece o ondular do trigo...

Depois à porta o eterno caminhante
Parecendo outro mas com mesma forma
Passava sempre... E esse era o inquieto instante
Em que a face das cousas se transforma...

E ele nunca ao mendigo perguntava
Nem perguntava a nada, a sós consigo,
O anónimo segredo que passava
Na veste e na passagem do mendigo.

O segredo fica para o segredo,
A porta sempre aberta, e livre a estrada...
Voltaram passos... A hora era de medo.

 

[V]
A sala sempre fechada


Escuto vozes na noite, desfeitas...
São vagabundos nas encruzilhadas...
Combinam cursos... Frases imperfeitas
Bóiam na hora cheia de fachadas...

Depois um riso vem na noite... assoma
Ao meu ouvido como a uma janela...
E eu tremo e choro porque 

 

VI

Entre ciprestes, sob um luar sem luz,
Por uma estrada que p’ra lá conduz
O frio som dos próprios passos, tendo
O som de alheios passos mais contendo
Do que passos e outro alguém a tê-los,
E entre cruzes e lajes e nos gelos
Dos pólos da concisa sensação...
E não tiveram dela compaixão...
E ela morreu entre o choro das aias
E tendo semelhanças com as praias
Nas ondas do seu vago olhar de verde...
Silêncio... A vida é um rosto que se perde…


 
VII

Sob pálios de solenes procissões
Há muito tempo, há mais tempo que tudo,
Num desfile, de hierárquicas visões
Passava Aquele cujo nome é mudo...

Sob cada pálio Ele... Repetida
Presença que era muitos e só um...
E isto passava-se não numa vida
E o horror disto era um horror nenhum...

Deus tinha medo dele... Só sei isto...
Todos os deuses ele destronou...
Foi quem fez matar Deus em Jesus-Cristo...
Mas o que é ele ao medo?... E eu que lhe sou?

 

FIM

Sala, após salas, todas as salas percorro,
A gritar de horror
E atrás de um espectro que não vejo ou sinto corro
E no meu terror

No centro mesmo do terror meu
Há uma eça armada
E que cadáver? A terra e o céu’
No seu olhar nada...

E a cena toda! O poder velado! A hóstia no chão
O altar pirâmide agora e ao lado


 espaço deixado em branco pelo autor


In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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