Disseram todos que eras feia.
Eu vi-te e, sim, era verdade.
Mas teu olhar, não há quem leia
Nele essa grande suavidade
Que não deixa que sejas feia?

Feia? Feição após feição,
Sim, tudo em ti não dá agrado,
E não é boa a sensação
Do teu rosto □
Mas teu olhar que coração...

Amarei outra, tal é a sorte,
Esquecer-te-ei — é essa a vida...
Mas quando vier o mal ou a morte
Sei que terei neles guarida
E o teu olhar será faro e norte.

Não, ainda não sou velho. Adeus...
Se amar, não te amarei a ti...
Mas o que vi nos olhos teus
Não o terei □

Talvez a vida tal me seja
Que viva e morra sem pensar
Que existes □

Ires comigo pela rua?
Pelo meu braço? Ao pé de mim?
Julgarão que a minha alma é tua...
Não, não... És feia, e é isso enfim
E os outros por descrer □...

28 - 5 - 1929

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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