Tu, vento do sul, ou vento do norte, ou vento
          Do leste ou do oeste,
Que vens abanar os ramos e o meu pensamento
          E o alívio que deste;

Tu, o que deste, levaste, para o leste ou para o norte
          Para leste ou p’ra sul
Deixaste o meu coração sempre triste, e o mar forte
          E o céu límpido e azul..

Comigo fiquei só quem era que sou. Com os ramos
          As folhas não restam, nem eu...
Inútil rogo, inútil esperança que herdamos
           Do que já nos morreu…

Aurora a raiar da noite que a minha vida
          Não logrará transformar…
Ó vento do norte, ou do sul, ou do leste ou do oeste, em tua lida
          Faz-me também não durar.


[c.15-8-1919]

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar