Onde não ‘stou, subitamente,
Pressinto que é tudo oco e vão.
Mundo vazio e existente,
Não cabes no meu coração!

Clara média de verem-te, azo
De □

Só posso ter minha alma, e ela
Mesmo não sei de quanto é minha.
São uma casa sem janela,
O tédio de viver

Por isso odeio o teu amplexo
Que não me toca, e, sem ardor,
Contemplo o teu absurdo nexo,
Ó universo exterior!

Vejo teus povos — pedras, casas,
Árvores, gente, o monte ocioso
De cousas. Mas tu não me abrasas,
Mundo vazio e luminoso!

Não encontro sentido a ser,
Se ser é só coexistir.
Deixa que morra em teu viver,
E assim te saberei sentir.

Parte talvez da tua essência —
Da tua essência revelada,
Será de mim a firme ciência
Da tua alma inominada.

Anónimo, disperso monte
De objectos e de sensações.
Não me pertences, horizonte
Das minhas incompreensões.

Só sou teu onde me limito.

Só toco em ti onde me perco.

12 - 8 - 1917

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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