Belisa, nico bem desta alma triste,
descanso singular de minha vida,
trono donde o poder de Amor consiste;

formosa fera, a quem est rendida
de Amor a que mais livre liberdade,
ganhada mais, se mais por ti perdida:

Quo contrrio parece na beldade,
que os coraes cativa com brandura,
alguma ndoa haver de crueldade;

quo contrrio parece em formosura,
que deixa muito atrs quanto humano,
esquiva condio ou alma dura;

quo mal parece em quem s cum engano
pode dar vida ao corao sujeito,
dar-lhe, em lugar de vida, um mortal dano;

quo mal parece que um amor perfeita
no seja de outro igual remunerado,
inda que seja, acaso, contrafeito;

quo mal parece estar desesperado
quem tanto por ti sofre e tem sofrido,
devendo estar de penas aliviado!

Porm pior parece quem rendido
no for a um parecer que tudo rende,
por mais que em seu rigor viva ofendido.

E inda pior parece quem defende
o ser essa beleza sempre amada,
por mais que em vo se canse o que a pretende.

Se quem te mostra amor te desagrada,
s podes pretender o no ser vista;
mas no, despois de vista, o ser deixada.

Quo mal sabe o valor de tua vista
quem cuida que o que dela acaso alcana
pode achar corao que lhe resista!

Quo bem pareceria uma esperana
j concedida a meu amor ardente,
no sempre uma mortal desconfiana!

Se um padecer por ti constantemente
pudesse ser reparo a quem mais te ama,
inda esperar pudera o ser contente.

Mas eu terno que aquela imensa chama
com que a teu belo imprio me levaste,
te enfrie tanto a ti, quanto me inflama.

Se a olmpica beleza assi imitaste,
que brandamente move um amor puro,
porque to dura condio tomaste?

Qual elevado, qual soberbo muro
este mal, que me ocupa o pensamento,
contado, no tornara menos duro?

Tu, que s a causa s de meu tormento,
tu, que somente podes gloriar-me,
queres que as minhas queixas leve o vento?

Tu, que me pagarias com matar-me,
inda a morte me negas vezes tantas?
Ai, que me deras vida em morte dar-me!

Usa piedade, tu, que o mundo espantas
cos belos olhos, com que o douras tanto,
se acaso a v-lo brandos os levantas.

Estende-se na terra o negro manto,
e noute d alegria a luz alheia;
mas nos meus olhos tristes dura o pranto.

Torna a manh despois alegre e cheia
da luz que o choro enxuga bela Aurora;
mas do meu choro nunca enxuga a veia.

Lgrimas j no so que esta alma chora,
mas amor vital que dentro arde,
e por a luz dos olhos salta fora.

Como inda a morte quer que mais aguarde?
No tarda j mas corra a mal to fero.
Mas j por mais que corra vir tarde.

Nem no supremo trance de ti espero
que inda, com ver o estado em que me hs posto,
queiras, crua, entender quanto te quero.

Ai! se volveres esse belo rosto
ao lugar triste em que morrer me vires,
no por desgosto teu, mas por teu gosto,

no quero de ti, no, que ali suspires,
nem que de dar-me a morte te arrependas,
mas que os olhos de ver-me ento no tires.

Assi nunca pastor a quem te rendas
te faa conhecer o que me fazes,
para que com teu mal meu mal entendas!

Como j agora no te satisfazes
das penas deste amor que, por querer-te,
de teu merecimento so capazes?

Pois quem com outro mrito render-te
presume – raro monstro de beleza! -
muito mais longe est de merecer-te.

Este si, que merece a gr crueza
com que tu de acabar-me a vida tratas,
pois diante de ti, de si se preza.

Se cuidas que com isto desbaratas
o meu constante amor, por que no viva,
ele mais vive quando mais me matas.

Se o dar-me morte tens por glria altiva,
eu me inclino a que mates; tu te inclina
a matar mais de branda que de esquiva.

Se esta alma tua julgas por indina
daquele grande bem que em ti se esconde,
do descoberto mal a faze dina.

Onde — ai! — voz acharei que baste — ai! — onde,
a poder reduzir-te a ser piedosa?
Ou me acaba de todo, ou me responde.

Mas por mais que te mostres rigorosa,
deixar meu pensamento me impossvel,
igualmente que a ti no ser formosa.

E por mais que esta dor seja terrvel,
somente o contemplar a causa dela,
inda que a faz maior, a faz sofrvel.

Porm chegando a no poder sofr-la,
perdendo a vida; quando a morte chame,
no perderei o gosto de perd-la.

justo que eu por ti mil mortes ame:
mas v tu se te ilustra, quando ofensa
minha mortal o teu valor se chame.

Bem vs que uma beldade to imensa
de vencer-me tem glria bem pequena,
pois s render-me tomo por defensa.

Mas j que amor to puro me condena,
contente fico assaz desta vitria;
que no me do meus males tanta pena
quanto o serem por ti me d de glria.

 

Luís Vaz de Camões
[BELISA ÚNICO BEM DESTA ALMA TRISTE]
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