Sou como uma criança nada
Num □  solar antigo,
Longe de vila, aldeia ou de estrada,
Monótono e sombrio abrigo,
De onde se a vida nunca vê
Sem nunca se saber porquê.

Tarde p’ra dor ou alegria,
Tarde desde o primeiro dia!

Tudo — acção, fé, prazer, amor
Dão-me só dúvida e terror.

Cativo de meu próprio ser,
Submisso do meu vão destino,
Sem ter a quem possa acolher

Não posso ir, não sei partir.

Em vão, de dentro de mim mesmo
Vozes me chamam para fora,
Em vão, tropel de □ a esmo,
O mundo dos outros me implora —
Em vão. Falam a quem não sabe
Que gesto ou que razão lhe cabe.

De longe passam romarias,
Ao longe o labor soa e canta,
Pelas estradas

22 - 2 - 1927

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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