MOTE

Ora cuidar me assegura,
ora me matam cuidados.

GLOSA

Foi ser a vontade minha
de todos to desviada
que me no afirmo em nada,
pois tenho o mal que tinha.
O bem que tinha me enfada.
Isto fora da ventura
- se no me engana o que cuido -
que tais extremos mistura
que ora o meu prprio descuido,
ora cuidar me assegura.

Diversas cousas me pede
o meu desejo inquieto:
umas nego, outras prometo;
mas contudo me sucede
perder-me no que cometo.
Como ser dos meus fados
a teno favorecida,
se para males dobrados
do-me ora cuidados vida,
ora me matam cuidados?

 

Luís Vaz de Camões
[ORA CUIDAR ME ASSEGURA]
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