Não, falar não, cantar só.
Essa balada muito antiga
Que, ou por cantada,
Ou por relembrada,
Mete dó.
Só essa, que é minha amiga.

Sem palavras, ainda que as tenha,
Mas essas não são
Palavras: são uma estranha
Confusão,
Como de uma flor que se apanha
Do chão.

Canto em que o cantor esquece,
Porque o que sabe bem
É esquecer o que se conhece,
É ser,
Dentro da alma que entreter,
A teia sem
Aranha que a tece,
Sonhar sem viver.

5 - 3 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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