(O soneto que só errado ficou certo.)


Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos
                                                                     os dias
para te dizer, cora a simplicidade do bater do coração
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.

Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
—  mas o desejo de ser a noite que me guias
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.

Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.

Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva.

 


In Idílio de Recomeço
José Gomes Ferreira
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