Eterno momento, ó gesto imorredouro
Ó da expresão de um desejar vida local;
Tornam-se terra o olhar azul e o cabelo louro
E tu és imortal.

Sempre no gesto teu de desejando
Sempre no meio eterno dum trair
Um sentimento  no desabrochando
Para nunca se abrir.

Incontinuada vida manifesta
Esperando o eterno ausente teu amor.
Perto do teu momento, mas que resta6
Sempre longe, e sem dor.

Terás tu um sentir invital, como alheio
Ao teu lugar de ser no espaço, ali?
Será alguma cousa alma o teu marmóreo anseio
No seu eterno aqui?
Tu não tens corpo, não tens vida, não tens alma
Na outra realidade que a de ser;
Mas o que é ser, ó branca imagem calma? O que é aparecer?
Será que tens uma alma e que essa alma está longe
Do teu corpo exilado no lugar da ilusão
O que és tu, visto que és? Beleza exul e monge
Na nossa imperfeição.

 espaço deixado em branco pelo autor.

3 - 9 - 1910

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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