To crua Ninfa, nem to fugitiva,
com lindo p pisou
a verde erva, nem colheu as brancas flores,
soltando seus cabelos d'ouro fino
ao vento que em mil doces ns os olhos ata,
nem to linda, discreta e to fermosa
como esta minha imiga.

Aquilo que em pessoa que hoje viva
no mundo no se achou,
quis nela a Natureza., seus primores
mostrando, que se achasse de contino:
castidade e beleza; ũa me mata,
a outra, de suave e deleitosa,
me faz doce a fadiga.

Mas esta bela fera, to esquiva,
que o prazer me roubou,
quis-mo pagar seus nicos louvores,
cantando eu num estilo dela indino;
porque, se de louvor to alto trata,
no sei eu to baixo verso e prosa
que escreva nem que diga.

Aquela luz que a do Sol claro priva,
e a minha me cegou;
aquele mover de olhos, minhas dores
causando do olhar manso e divino;
o doce rir, que esta alma desbarata,
faz a sua pena desejosa
e de seu mal amiga.

Dos belos olhos veio a flama viva
que n'alma se ateou
com a lenha de vossos disfavores,
queimando dentro o corao mofino,
cujo fim, por mor dano, se dilata
com a esperana falsa e duvidosa
que forado que siga.

Minha ou vossa vendo-se cativa
quem Deus livre criou,
se aqueixa desses olhos roubadores,
culpando ao claro raio peregrino;
mas logo a luz suave, que a resgata,
de vossa linda vista graciosa
a faz que se desdiga.

Nenhũa que no mundo humana viva,
que o Criador formou
por milagre maior entre os maiores,
formou um feito de tal Feitor dino;
Deus no quer que sejais, Senhora, ingrata,
mas que ajudeis ũa alma desditosa
que em vs servir periga:

a sofrer esta pena rigorosa
vosso valor me obriga.

 

Luís Vaz de Camões
[TÃO CRUA NINFA NEM TÃO FUGITIVA]
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