Com que voz chorarei meu triste fado,
que em to dura priso me sepultou,
que mor no seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?

Mas chorar no se estima neste estado,
onde suspirar nunca aproveitou;
triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

Assi a vida passo descontente,
ao som nesta priso do grilho duro
que lastima o p que o sofre e sente!

De tanto mal a causa amor puro,
devido a quem de mi tenho ausente
por quem a vida, e bens dela, aventuro.

Luís Vaz de Camões
[COM QUE VOZ CHORAREI MEU TRISTE FADO]
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