Sim, é o Estado Novo, e o povo
Ouviu, leu e assentiu.
Sim, isto é um Estado Novo
Pois é um estado de coisas
Que nunca antes se viu.

Em tudo paira a alegria,
E, de tão íntima que é,
Como Deus na teologia
Ela existe em toda a parte
E em parte alguma se vê.

Há estradas, e a grande Estrada
Que a tradição ao porvir
Liga, branca e orçamentada,
E vai de onde ninguém parte
Para onde ninguém quer ir.

Há portos, e o porto-maca
Onde vem doente o cais.
Sim, mas nunca ali atraca
O paquete Portugal
Pois tem calado de mais

Há esquadra… Só um tolo o cala,
Que a inteligência, propícia
A achar, sabe que se fala,
Desde logo encontra a esquadra:
É uma esquadra de polícia.

Visão grande! Ó ódio à minúscula!
Nem para prová-la tal
Tem alguém que ficar triste:
União Nacional existe,
Mas não união nacional.

E o império? Vasto caminho
Onde os que o poder despeja
Conduzirão com carinho
A civilização cristã,
Que ninguém sabe o que seja.

Com «directrizes» à arte
Reata-se a tradição,
E junta-se Apolo a Marte
No Teatro Nacional,
Que é onde era a Inquisição.

E a fé dos nossos maiores?
Forma-a, impoluta, o consórcio
Entre os padres e os doutores.
Casados o Erro e a Fraude,
Já não pode haver divórcio.

Que a fé seja sempre viva,
Porque a esp’rança não é vã!
A fome corporativa
É derrotismo. Alegria!
Hoje o almoço é amanhã.

29 - 7 - 1935

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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