Ao p de uma alta faia vi sentado
num vale deleitoso e bem florido
a Almeno, pastor triste e namorado.

Outro no mundo pode haver nacido
to queixoso de Amor; porm, no tanto
como este amante por amar perdido.

J Vnus ia recolhendo o manto
escuro com que a terra se mostrava
para ajudar de Almeno o triste pranto.

Apolo sobre os montes derramava
seus dourados cabelos, que faziam
ao triste inda mais triste do que estava.

As flores por o prado se estendiam
e das que finas mais eram as cores
as brancas roxas Ninfas mais colhiam.

J guiavam seus gados os pastores
que, deixando-os no campo deleitoso,
com elas praticavam s de amores.

Mas era esta alegria um perigoso
estado para Almeno entristecido,
e por isso a deixava pressuroso.

Buscando outro lugar, contra Cupido
claramente exclamava, e o arguia
de contrrio, de astuto e fementido.

De quando em quando, a frauta que tangia
nmeros dava ao ar to docemente
que as aves provocava a melodia.

Cego assi desta dor, deste acidente,
com os olhos em lgrimas banhados
postos no cu, dizia tristemente:

«Se, Amor, eu te ofendi com meus cuidados,
porque mos deste tu para ofender-te,
quando livre vivia nestes prados?

No vs quanto me negas merecer-te
o bem que me mostravas, se deixasse
ferir meu corao para sofrer-te?

Qual bem me hs dado, Amor, que me durasse?
Ou qual me hs prometido, que hajas dado?
Ou qual deste que muito no custasse?

Mostra-me quem puseste em tal estado
que pudesse viver de ti contente,
ou quem de ti no fosse lastimado.

Inimigo cruel de toda a gente,
j no quero teu bem, s meu mal quero,
se de ti nem meu mal se me consente.

Inda que de teus bens j desespero,
no desprezo dos males o tormento,
antes o prezo mais quando mais fero».

Arrebatado deste pensamento,
ia o triste pastor com um contino
pranto, que lhe avivava o sentimento,

quando entrou num vergel de esmalte fino,
que era de Amor plantado, e parecendo
lhe est menos humano que divino.

Nele a dor sua esteve suspendendo:
porm no como cervo est, ferido,
reparo ao mal que leva pretendendo.

Aparecia o stio to florido
que provocava a no vulgar espanto,
entre uns altos ulmeiros escondido.

De um cristalino orvalho tinha o manto,
quando entrou nele, o msero pastor,
e as tenes explicou neste seu canto:

« belas rosas, vs, que sois Amor,
por dita humildade ou baixeza
o ter a par de vs murta, que dor?

Papoulas conversais, que so tristeza?
No desprezais o cardo, que tormento?
Admitis a hortel, sendo crueza?

Dos goivos longe vejo o sentimento;
dos jasmins perto estou vendo o perigo;
do malmequeres vejo o sofrimento.

Deste me temerei como inimigo.
Mas traz por armas salva, que razo:
com ela acabar tambm comigo.

As minhas vm a ser uma afeio
que so os puros cravos misturados
coa vontade sujeita, que limo.

Ai, mosquetas, que sois de Amor cuidados!
Ai, crespa manjerona, que s prazer!
Vs ss deveis adornar os prados.

No podem dois opostos juntos ser,
onde se opem giestas, que lembrana,
junto do rosmaninho, que crecer.

Bem pesa do leve lamo a mudana;
do roxo goivo anima o pensamento,
do cipreste odorfero a esperana.

O trevo, que sentido apartamento,
cerca o manjerico, que se interpreta
memria a quem ofende o esquecimento.

Mais importuna que o jardim de Creta,
a ameixieira a flor est soltando;
a segurelha vejo, que discreta.

As ervas que daqui irei tomando
so a pura cecm, que saudade;
cravos medo de ver qual de amor ando.

E, de ter mui perdida a liberdade,
tomarei madressilva entendimento;
legao tornarei, porque verdade.

Marmeleiro me d arrependimento;
por a salva, que gosto, tomarei
coentro, oposto ao meu contentamento.

Conhecimento firme nunca achei
que violetas so; e, quando o houvera,
qual meu dano ento fora bem o sei.

Oh, quem, erva-cidreira, oh, quem pudera
ver-vos aqui menor, pois sois vitria,
que de mim alcanou chama severa!

Mas se quereis que tenha alguma glria
por galardo de amar e ser sujeito,
perderei de tormentos a memria.

Porm, pois mo negais, de todo enjeito
a palma, que ventura; e na parreira,
que esperana perdida, me deleito.

Entretanto coa flor da laranjeira,
que desafio duro e arriscado,
posso arguir da hora derradeira.

J no se quer deter o meu cuidado.
Com a rom descanso; a brevidade
das maravilhas s tem desejado.

E vs, ovelhas minhas, sem piedade,
vos apartai de mim, se algum desejo
tendes de ter do pasto mais vontade.

Se muita de me verdes em vs vejo,
toda a minha de ver-vos hei perdido,
fora do poder de amor sobejo.

Lograi do Tejo o plcido rudo;
ss, lograi estas veigas florecidas.
Pois se perde o pastor vosso querido,
no gosteis de com ele ser perdidas.

 

Luís Vaz de Camões
[AO PÉ DE UMA ALTA FAIA VI SENTADO]
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