Sem impaciência,
Sem curiosidade,
Sem atenção,
Vejo o crochet que com ambas as mãos combinadas
Fazes.

Vejo-o do alto de um monte inexistente,
Malha após malha formando pano…

Qual é a razão que te dá entretenimento
Às mãos e à alma essa coisa rala
Por onde se pode meter um fósforo apagado?
Mas também
Qual a razão que assiste a eu te criticar?

Nenhuma.
Eu também tenho um crochet.
Data de desde quando comecei a pensar…
Malhas sobre malhas formando um todo sem todo…
Um pano que não sei se é para um vestido ou p’ra nada —
Uma alma que não sei se é p’ra sentir ou viver…
Olho-te com tanta atenção
Que já nem dou por ti…

Crochet, almas, filosofia…
Todas as religiões do mundo…
Tudo quanto nos entretém ao serão de sermos…
Dois marfins, uma volta, o silêncio…

9 - 8 - 1934

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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