Porque choras do que existe
A terra e o que a terra tem?
Tudo nosso - mal ou bem -
É fictício e só persiste
Porque a alma aqui é ninguém.

Não chores! Tudo é o nada
Onde os astros luzes são.
Tudo é lei e confusão
Toma este mundo por ‘strada
E vai como os santos vão.

Levantado de onde lavra
O inferno, em que somos réus
Sob o silêncio dos céus,
Encontrarás a Palavra,
O Nome interno de Deus.

E, além da dupla unidade
Do que em dois sexos mistura
A ventura e a desventura,
O sonho e a realidade,
Serás quem já não procura;
 
Porque, limpo de universo
Em Cristo nosso Senhoi
Por sua verdade e amor,
Reunirás o disperso
E a Cruz mostrará a Flor.

6 - 2 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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