Depois que o som da treva, que é não tê-lo,
Passou, nuvem obscura, sobre o vale
E uma brisa afastando meu cabelo
Me diz que fale, ou me diz que cale,

A nova claridade veio, e o sol
Depois, ele mesmo, e tudo era verdade.
Mas quem me deu sentir e a sua prole?
Quem me vendeu nas hastes da vontade?

Nada. Uma nova obliquação da luz,
Interregno factício onde a erva esfeia.
E o pensamento inútil se conduz

Até saber que nada vale ou pesa,
E não sei se isto me ensimesma ou alheia.
Não sei se é alegria ou se é tristeza.

 

13 - 9 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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