Era um calor forte, duro.
O ruidar das cigarras parecia um bater das têmporas da Hora.
Uma sonolência acre e hirta amolecia na poeira da estrada.
A ausência de brisa doía aos sentidos.
Uma nitidez falsa era mais rugosa do que devia ser nos troncos das árvores.
A minha cara reflectida grotescamente no bombeado da cafeteira polida
chamou-me, não sei porquê, à realidade.

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001
Alberto Caeiro
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