Tragam-me tédio para divertir-me!
Tragam-me flores para as recusar!
Quero de quanto quis ou pude rir-me,
De quanto amei falar…

Falar, dizendo o que se nunca diz,
O que a alma a si oculta e a outros nega.
Quero a mim mesmo parecer feliz
Como a criança que sem água rega.

Tragam-me rosas, — rosas, sim, ou lírios —
Para que eu sinta em mim o Imperador,
Até que enfim os meus próprios delírios,
Suaves, se voltem contra o seu senhor.

8 - 8 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar