No plaino abandonado 
Que a morna brisa aquece, 
De balas traspassado — 
Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.
 
Raia-lhe a farda o sangue. 
De braços estendidos, 
Alvo, louro, exangue, 
Fita com olhar langue 
E cego os céus perdidos.
 
Tão jovem! que jovem era! 
(Agora que idade tem?) 
Filho único, a mãe lhe dera 
Um nome e o mantivera: 
"O menino da sua mãe".
 
Caiu-lhe da algibeira 
A cigarreira breve. 
Dera-lhe a mãe. Está inteira 
E boa a cigarreira. 
Ele é que já não serve.
 
De outra algibeira, alada 
Ponta a roçar o solo, 
A brancura embainhada 
De um lenço... Deu-lho a criada 
Velha que o trouxe ao colo.
 
Lá longe, em casa, há a prece: 
"Que volte cedo, e bem!" 
(Malhas que o Império tece!) 
Jaz morto, e apodrece, 
O menino da sua mãe.


c. Maio de 1926

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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