A mão de Deus caiu-lhe sobre a fronte
      E prostrou-o no chão
E ele, que fora o déspota pequeno
Que torturara plácido e sereno
Sentiu o terror □ no coração...

Ah, não foi o terror só do que o acaso
      Traz de fatal..
Maior pavor lhe tomou a alma e o raso
      Coração desleal..

Obscuramente, como outros deuses
      Nervos da alma
Sentiu o medo de quem fez o mal
E sente, não sabe de que modo irreal,
      Cair-lhe sob o peso do Acaso a calma.

Ele, o prostituído à vacuidade
      Da fama popular..
Ele, o réptil cheio da erma maldade
Sente num só momento esse ancestral
Terror do quem sabe que fez o mal
      E sente a mão de Deus sobre ele pesar...

 

6 - 7 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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