No fim do outono que finda,
Na última tarde que resta
Da vaga ‘sperança vinda
Como um ruído da floresta,

Frio e apagado anseio,
Incerto em meu ser bóio,
O único passageiro
Do último comboio.

Não sei como diga o que anda
Pelo meu ser a doer,
Que se extravasa da banda
De nada já poder ser.

Sozinho no anseio mudo
Com que medito o anseio,
Sem mente que pense tudo,
Nem duvido nem creio.

Não tenho que ter razão.

10 - 10 - 1927

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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