Olhei hoje para as estrelas,
Um só olhar tão longe de mim! —
E senti humildade e um horror profundo
Tudo misturado e feito de medo;
Como sou pequeno e pequeno o mundo
Ante as estrelas que aterram assim!

Tive um sentimento de tal pequenez
Que em terror fiquei e em sobressalto
Só por saber que tal mistério encontra
O olho que, do erro, olha o alto,
Noite dentro, com estrelas sem conta.

Noite dentro! Noite dentro!
Vem, espírito meu! Pela noite dentro
Esvazia as salas onde homens festejam,
Casas de riqueza, luxo e soberba,
Ergue-te comigo em desassossego,
Sejamos perdidos no amplo espaço,
Não fiques aí como sombra ou traço.
Noite dentro! Noite dentro!
Vem ler comigo a parábola do espaço
Em graça escrita e separadamente,
Vem decifrar este problema

Vem, e leremos num livro imponente.

Noite dentro! Noite dentro!
Quem fez as estrelas assim luminosas
E a lua vazia e silenciosa
No seu encanto vasto e profundo,
Tristeza e dor, espírito meu, cedo virão.
Noite dentro! Noite dentro!
Vem, ó espírito, pois torturas fundo,
Logo o mar treme cintilante
E as flores dormentes estão;
Vem pela noite para sonhar
Com o presente até que doa o vento
E surja um sentido dessa visão,
Um sentido que nada possa abalar.
Vem, até que sinta a vida a desfalecer
Na luz da lua a desaparecer.


In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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