O esforço é doloroso...
Deixemo-nos ir
Pelo mundo ocioso
Como que a sorrir...

Numa incerta mágoa,
Num sem querer mudo,
Sejamos como a água
Que reflecte tudo...

De que serve a vida?
Para quê a dor?
O bom soi convida
A um feliz torpor...

Vamos indo, indo,
Sem se definir
Ao nosso □ infindo
P’ra onde queremos ir...

Lá iremos ter...
Lá — parte nenhuma
Vida que viver...
Sussurro de espuma...

Mágoa incerta e vasta,
Céu azul e claro...
Como a dor contrasta
Com o ócio em que paro...

Que quero eu dizer
Com a minha vida?
Saiba eu não o saber...
Leve a alma dormida.

Estrela em sossego,
Feneça no afago
Duma brisa ao cego
Silêncio dum lago.

P’ra além do momento
Há todo o céu fundo,
E o movimento
Do abstracto mundo.

Que importa? Nas águas
Quando se reflecte
O verdor das fráguas
Nada se promete...

Tudo é como é
Sem que seja nada...
Quem me dera a fé
E o sol sobre a estrada!
O rio não tem ponte.
A alma não tem cor...
O sol, que desponte
Mas nunca o amor...

Grácil, fugidia
Demora da vida
Na tristeza fria
Que a faz comovida...

O sonho em botão,
A dor em acerto
Com a conclusão
Do mistério incerto.

Palavras perdidas...
A casa da alma
Quem me dera a calma
E as horas idas!

12 - 2 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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