Deh! dovve senza me, dolce mia vita
               Rimasa sei si giovane e si bella.

                                 Ariosto Furioso C. VIII


Ao longo de uma ribeira
eu passeava sozinho;
e um pássaro ouvi cantando
sobre um ramo, ao pé do ninho.

A esposa guardava os filhos
co' as asas agasalhados;
todo o vale era em silêncio;
e eles ambos sem cuidados.

De sua vida amorosa
concebi toda a doçura;
e achei-me sozinho à beira
… … … … … … … … … … … …
da corrente que murmura.
0 sol ia quase a pôr-se;
e a frouxa luz que espargia,
as águas, e o campo, e o bosque,
tudo em púrpura tingia.

Ao longe, ouvia as pastoras,
que os seus rebanhos levavam;
eles bailavam contentes,
elas de amores cantavam.

O sol se escondeu de todo;
e da aldeia sobre a ermida,
ao longe, o sino saudoso
deu ao dia a despedida.

Os campos ficaram tristes:
só, de momento em momento,
se ouvia um cão em distância,
ou brando agitar-se o vento.

E eu me achei só assentado
ao pé d'água que fugia;
e os sons da tarde em minh' alma
dobraram melancolia.


Já tinha nascido a lua
no céu formoso de estrelas;
quando boiava água abaixo
barco sem rumo nem velas.

E o barqueiro ia cantando
não sei que saudosas mágoas...
assentado sobre a popa,
debruçado sobre as águas;

e quando ele interrompia
seu cantar, e assobiava,
mulher, que vinha com ele,
em voz mui doce cantava.

A noite, as auras, a lua,
rouxinóis a gorjear,
me inspiraram sentimentos
que não tive a quem narrar.
… … … … … … … … … … … …
E eu voei co' o pensamento,
qual relâmpago ligeiro,
aos muros silenciosos
de solitário mosteiro.

Melancólico e silvestre
era todo esse lugar:
de um lado, montanhas ermas;
do outro, pinhais, e o mar.

E eu entrei ao mesmo tempo
no fundo do santuário;
das campas o surdo estrondo
movi com pé temerário.

Por toda a parte achei noite,
e o silêncio mais profundo:
nenhuma voz! nenhum passo!
nenhum dos filhos do mundo!

Só do mocho sobre o tecto
o triste piar se ouvia,
que pela abóbada extensa
se alongava, e se perdia.

Logo  o relógio da torre
meia-noite fez ouvir;
do templo os ecos acordam,
e tornam logo a dormir.

Depois um sino, tocado
por forte, invisível mão,
chamou, triste, os pensamentos
para a nocturna oração.

Do coro, até 'li deserto,
foram cheios os lugares;
no ar, até 'li calado,
reinaram ternos cantares.

A hora, o lugar, as trevas,
e aquelas vozes suaves,
reuniram na minh' alma
à ternura ideias graves.
… … … … … … … … … … …
Emudeceu todo o coro;
eis as luzes se retiram;
bateu a porta ao fechar-se;
as santas irmãs saíram.

Da lâmpada veladora
o lume, já quase extinto,
de mil trémulos fantasmas
encheu do templo o recinto.
… … … … … … … … … … … …
Afastei-me horrorizado,
e veloz nesse momento
ao dormitório tranquilo
me arrojei co' o pensamento.

Mão na face, e olhos na lua,
vi, dentro de escura cela,
chorosa virgem, sentada
às grades de alta janela.

Conheci por seus cabelos,
e seus trajes seculares,
que não era das votadas
eternamente aos altares.

Conheci que um pensamento
nutria triste e profundo;
e eu disse: «Qual eu me vejo,
se vê sozinha no mundo!»

E todos quantos afectos
sua alma encerrados tinha,
num profético delírio
foram presentes à minha.
… … … … … … …. … … … …
Mas esta virgem, quem era?
Porque entrou na solidão?
Donde o seu ar pensativo?
Donde a interna agitação?
… … … … … … … … … … … …
Onde existe esse Mosteiro,
esse encantado lugar?
De um lado, montanhas ermas!
Do outro, pinhais, e o mar!

Homens, deixai meu segredo;
Baste saber que eu sou dela,
seja onde for seu retiro,
seja quem for esta Bela.
Mulheres, este fantasma
vos excede nos encantos.
Serão dele eternamente
o meu amor e os meus cantos.

 

António Feliciano de Castilho
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