I

Abram-se as janelas para o dia entrar
Como um estampido ou como fosse o mar!
Que nem um só recanto de sombra vã
Traga pensamentos nocturnos à manhã
Ou tenha coisas tristes a dizer,
Pois tudo neste dia é um prazer!
Esta manhã, manhã clara, o sol aberto
Ergueu-se da noite já liberto
Do abismo além do qual ficou detido
Na orla invista do horizonte perdido.
Desperta a noite. Oh, como treme toda
Por sentir chegado o dia da boda
Cuja noite próxima, a carne aproximando
Dois corações díspares porá a bater.
Vê como se alegra em dar-se tremendo,
Nem os olhos abre temendo o prazer.
Da esperança dorida o momento chegado.
O como fazer mal adivinhado.
Oh, deixai-a esperar um momento, uma hora,
E preparar-se para aquela prova
Para a qual a mente jamais preparada!
Deste dia a vinda deixa-a meio irada.
Mesmo o que quer querendo, fica-se no gozo
De seus sonhos difusos, em lazer,
À beira lenta do sono que, ocioso,
A esperança das coisas vem desfazer.

 

II

Afastai das janelas, leve, o cortinado
Que a vista impede mais do que a luz!
Olhai o vasto campo que, ali deitado,
Sob o céu imenso e azul reluz,
Sem nuvens, e o calor a começar
Como torna difícil o olhar!
A noiva acordou. Ah, como, de emoção
Mais que o acordar sente o coração!
Seus seios se retraem ao frio interior,
Do medo que sente e que nela é maior,
Pois tocados vão ser por uma outra mão
E lábios vão ter p’ra os sugar em botão
Oh! O pensar das mãos do noivo a tocar
Já, lá onde as suas mãos não ousam pousar
E seu pensar se reduz ao indistinto.
Deitada ainda sente o corpo por instinto.
Deixa que os olhos se abram vagamente.
Cada coisa aparece em névoa franjada
E este dia é claro, nitidamente,
Excepto ao seu sentir, de amedrontada.
Como matiz a luz na pálpebra pousa
E ela quase odeia a luz que inda não ousa.

 

III

Abram as janelas e as portas em par
P’ra que nada da noite possa ficar,
Ou, como rasto de navio em mar,
Subsista o que a fez lá estar!
Deitada no leito espera que o desejar
Se torne mais forte e ela se levante
Ou fique mais fraco e o medo suplante
E como em qualquer dia se vá levantar.
Será ela a noiva que com homem dorme,
E as partes onde é mulher, insistindo
Enviam mensagens, o pudor banindo
De sonhá-la excepto em névoa informe.
Abre os olhos, o tecto em cima, a olhar
Da pequena alcova o pequeno céu,
E pensa, até que os volte a fechar,
Noutro tecto que esta noite será seu,
Outra casa, outro leito e ela deitada
De uma maneira mal imaginada;
Assim cerra os olhos para não ver
Seu quarto que em breve deixará de ser.

 

IV

Que a plena luz encha a casa de vida
Como um arauto de fronte cingida
De rosas e folhas em grinaldas em flor
Que o amor tece por ser amor!
Entre ela e o tecto, do dia ao findar,
O peso de um homem já se curvará.
Ah, as pernas se cruzam só deste pensar
Sabendo que mão as separará;
Temendo esse entrar, a que a dor conduz,
Que em dor começado, doçura depois.
Se vós, raios de sol, habitados sois
Por fadas ou gnomos brincando na luz,
Segredai-lhe, se temer o sangue sabido,
Que estreita é a porta do amor escondido.

 

V

Ora será seu túmulo virginal,
Inda intacto, no próprio sangue cavado.
Juntai-vos ao alegre funeral
E tecei seu esquife de encarnado
Ó desejos carnais de masculino ser
Que nela as horas secretas adoçou
E a mão ansiosa lhe levou,
Relutante, onde começa o prazer.
Vinde, pequenos gnomos, bando em massa
Que da pressa entornais a cheia taça;
Fazeis a carne e juventude embelezar,
A terra alegre e o sol de verão nascer;
Vós, secretos, que as árvores fazeis crescer
Verdes, as flores abrir, as aves cantar,
Quando no ardor de um brilho tremente
O touro monta a vaca, possessivamente.

 

VI

Cantai-lhe à janela, ó aves matinais
Que a própria alegria no canto cantais!
Zumbi no seu quarto, no sono que vela,
Ó pequenas moscas, rastejai agora
Por toda a coberta e nos dedos dela
Em unidos pares. Ela se demora.
Pelas pernas juntas uma profecia
Como interna mão já se faz sentir.
Olhai como tarda! Não tema a alegria!
Vá! Acorda! Veste-te p’ra depois despir!
Vê como o sol-tudo é todos unidos!
Em botão zumbe a vida na flor dos sentidos.
Vem! Levanta-te! Que teu é o prazer!
É tua a alegria, ó rosa por colher!

 

VII

Levanta-se agora. Vede como olha
Descendo o olhar, descida a camisa,
A sua nudez ainda imaculada
Na branca forma, salvo na divisa
Desenhada a negro, e fica envergonhada
Do seu vê-la hoje, até que, em jeito
De afago a roupa cobre o corpo. Veste-te!
Não pares sentada na borda do leito,
Não penses no quê e como, adivinhado!
Escuta só as aves lestas no beirado!
De pé! Já lavada! Oh, já meio vestida,
Pois lhe faltam mãos para abotoar
A branca veste simbólica e erguida
Está, ao vir das damas para a enfeitar.

 

VIII

Olhai como, por não vê-las, as donzelas
Entre si sorriem seu próprio pensar!
Desflorada está no pensamento delas.
Com cuidado, os cabelos entrançados
Por mãos minuciosas, ao sol a afagar,
Uma prende o cabelo em nós concertados;
Outra abotoa a veste e a sua mão
Tocando o calor vivo no corpo são
Pensa a mão do noivo, que rude será.
Então, a primeira, no véu se esfumando,
Lhe põe na cabeça, a sua inclinando,
A grinalda em que, breve, sentido não há.
Outra, de joelhos, os sapatos tem
E os ajusta aos pés, trementes, a ver
As pernas em meias subindo àquele bem
Onde o dia inteiro contra o seu prazer.

 


IX

Já vestida está, o rosto ganhando
Cor. Vede como o sol insolente
Brilha e esse estende, trepando
Para alcançar a vidraça ardente!
Toda ela é branco. Toda à espera dele.
Vago e brilhante é o olhar dela.
Mãos frias, lábios secos e o peito
Arfando como perseguida é a gazela.

 

X

Agora é trazida. Ouvi como esmorece
O falar que logo em nova onda cresce!
Agora saiu p’ra onde os convidados
Olham seu olhar que olhá-los não ousa.
O sol quente está a brilhar lá fora.
Um suado unto de vida quente pousa
No rosto do dia, já nesta hora.
A alegria ferve contida em cada cousa.

 

XI

Ponham festões e grinaldas de cores
A enfeitar salas e corredores!
Por toda a parte alegres sinos suando!
Por toda a parte haja cantigas ecoando!
Vertei toda a vossa alegria em libação!
Gritai, meninas ou rapazes que hoje são,
Cujos ventres sem pêlo, assexuados,
Guardam brancamente o sexo de um dia!
Berrai como se soubésseis a alegria
Que felizes aplaudis despreocupados!

 

XII

Este é o mês e o dia marcados.
Não podeis ficar mais tempo parados.
Em animados grupos ide para fora,
Para onde, além das árvores, da torre a altura
No vasto céu azul uma mensagem prova,
De uma certa calma e também da doçura.
Para a igreja, excitados, saí segredando!
Na turba ordenada o sol se derramando,
E todos os olhos à noiva se agarram:
Sentem como mãos, suas ancas e peito;
Como o dentro da roupa da sua pele ao jeito,
Envolvem e volvem e nela se amarram;
Levantam-lhe as saias como a provocar
A fenda escondida por baixo; e o pensar
Tudo isto dela, espreita nos seus gestos
E nos seus olhares a brincarem lestos:

 

XIII

Não mais de igreja ou festa, que o vedes
É exterior ao dia, como as árvores verdes
Na berma para lá deste caminho
E para cá da igreja, sob o sol a pino.
Isto mais não é que paredes ou chão
Do vero ritual de todo o grande dia.
Para os que se casam e para os que lá vão
Isto é já da cama apenas a via.
Assim, essas coisas que forem passadas,
Num vago claro-escuro se passarão
De minutos, horas vistas e sonhadas
Fora do tempo e falsas na visão.
A festa, a vinda e a boda nupcial,
São tudo para todos névoa tal
E em cada um quente ideia confusa
De ébria emoção nas veias difusa,
E uma rubra urgência no ver e ouvir,
Uma festa entre si de sonhos de amor
Até a corrida importuna atingir
Um ponto extremo de alegria e dor.

 

XIV

O noivo anseia de tudo o final
No desejo dos seios em prazer chupado,
No pôr da mão no pêlo virginal
E no apalpar do antro labiado
Da fortaleza pronta para assaltar,
Que faz o aríete crescer e ansiar.
A trémula noiva sente, todo o dia,
Calor no lugar inda enclausurado
Onde só, nocturna, a sua mão fingia
Ganhar, do prazer, um lucro gorado.
E dos outros, a maior parte murmura
Disto sabendo o pouco que dura.
E as crianças, olhando atentas nos sentidos,
Antegozam já da carne o saber,
No fazer com homens e mulheres crescidos
O acto de excitante e líquido prazer,
Tentando p’los cantos o gosto futuro,
Gosto que mal sabem, porque prematuro.

 

XV

Até vós, velhos já, vindos à boda
Como ao passado, lançai na taça toda
A alegria e bebei com esta primavera,
Por aquilo que agora vos faz lembrar
Do que era o amor quando o amor era.
(Hoje o proíbe vosso hibernal pensar.)
Bebei hoje, da noiva a triste alegria
E do noivo toda a pressa refreada,
Da mocidade a memória desse dia
Em que, com triunfal música entoada
À superfície de quem mais fundo sentiu,
Vos unistes a outro e a noite viu
O dia entrar, vós inda ofegantes de prazer,
E a carne meio vencida ainda a reerguer.

 

XVI

Não importa o agora, o passado ou futuro.
Sede da idade dos amantes no amar!
Daí, ao dia musculado, todo o pensar,
Que como cavalo veloz rompe o muro
Do tempo para que a noite já venha
E a montada virgem cavaleiro tenha!
Carne beliscada, enlaçada, mordida,
Carne esmagada e mesmo oprimida,
Tudo isto inflama hesitante o pensar
No que dizer ou no que aparentar!
Dardejai em olhares nus até temer
Em vós mesmos a febre do prazer,
Em rápidos olhares parecendo odiar
A roupa e o pensar que impedem o amor;
Estendei os membros cá fora, ao calor,
P’ra sentirdes o dia enquanto durar!
Pois que o sol forte, a verde relva, o chão ardente,
De cada lago o espelho incandescente,
E o pensar febril na noite que vai ser,
É toda uma unidade de calor e prazer.

 

XVII

Em rubra vaga de báquico pensar
Nas loucas têmporas, qual ira, a latejar
Na fúria que turva nos olhos a visão
Mas torna tudo claro na névoa circundante,
Do grupo todo, a alma ébria, vacilante,
Já ressalta alegre do próprio chão!
Ah, embora gente vulgar, amontoada
Para a igreja, da igreja, em desfilada,
Sátiros porém, que em ancas, tetas e panças
Pagãos se deleitam nas carnes tensas,
E cujo curso aberto no arvoredo
Se acerca da ninfa submissa no medo;
Em tropel invisível, atrás e à frente,
Se move o grupo lascivo e decente
As almas passivas na malha enredando
E seu andar, de cegos tropeçando,
Acorda a terra em declive a ecoar
Para a luxúria em seu saltitar.

 

XVIII

Iô!Iô! Escorre um suco de raiva e prazer
Por entre os corpos em mescla enredadas
Que ardem por despir-se e guerra fazer
Sobre a carne uns dos outros, dados
Na luta que enche o ventre p’ra leite deixar
Nas tetas que um homem souber conquistar,
Combate em raiva de ajustar, unir,
E não de magoar ou de se ferir!
Iô! Iô! Embriagai-vos com o dia e a hora!
Gritai, gargalhai, esmagai agora
O próprio pensar em clamor e verdade,
Não escape uma queixa de morte ou idade!
Tudo juventude agora e as pequenas
Dores, que vibram nas veias plenas,
São elas cheias de prazer excitado
Para suspender antes de saciado.
Tudo, excepto a carne, da mente tirai,
E o dar do leite macho que faz viver!
Repiques de alegria, como erva, arrancai
Do chão da alma onde veio crescer!
Fazei o vosso cio imenso jubilar
Com soltas risadas e vosso falar,
Como se a terra, o céu em brasa, o ar tremente
Soassem qual címbalo, poderosamente!

 

XIX

Ponde a flamenga hora a flagrar!
Afastai dos sentidos todo o lazer!
Derrubai com socos que dão prazer
Mesmo ferindo as mãos que fingem evitar!
Todas as coisas, puxai para a cama,
Que convidam à nudez tal como se ama.
Rasgai, desvendai, como quem tesouro quer
E a terra abre, ao cofre a espreitar;
Assim o pensamento encobre o pensar
Nos actos ardentes que o dia sugere!
Agora as mãos todas parecem espremer,
Seios, como a querer deles o sumo ter!
Agora parece que tudo em casais vem,
A carne dura cobrindo a carne branda,
Pernas peludas e coxas em demanda
Das brancas pernas, entre as quais se tem.
Mas estas ideias no pensar convulso
Só dizem do dia de amar o impulso:
Do homem, o desejo de posse que sente,
Da mulher, o homem sobre ela a dobrar
A vaga abstracta da vida a chegar
À praia dos corpos, concretamente.
Contudo algo disto ao dia foi doado.
Agora às criadas a saia é erguida
E as baias do ventre, assim devassado,
Abrem-se ao cavalo que irrompe, em corrida,
Quase tarde já, prestes a golfada.
E agora um velho com moça corada
Se enreda em escuro canto, a jeito,
E, lenta, a faz mover o corpo exibido.
Vede como gosta, no arfar do peito,
Por sentir a mão no dardo saído!

 

XX

Mas isto é só promessa, pensamento
Ou apenas cio, gozado a meio intento,
Tudo isto prazer pensado e sem ensejo
Ou usado apenas para acalmar desejo.
Fazei o que pretende do amor a esfera
E o que a Natureza já de vós espera!
Fazei que do cio realmente a dor
Dome o cavalo da vida às paixões
E acasalai de amor p’lo criar amor!
Mugi! Relinchai! Sede touros ou garanhões
A ferver de encontrar o buraco do sémen!
Erguei-vos na excitação que complementará
Dentro de vós o jovem sumo carnal
Em húmida, unida junção na qual
Ireis saudar a vida que virá
Ao ventre lavrado a renovar em onda
A curva fecunda da terra redonda!

 

XXI

E vós, casados hoje, as intenções
Intuí, do concertado grupo, em sugestões
Que vós tendes da Natureza naturais,
E que em vosso belo futuro desafiais!
Lábios presos, braços nus, sentidos seios, órgão tenso,
Cumpri a vossa noite de prazer imenso!
Ensinai-lhes isto, ó dia de ardor em pompa!
Levai-os a pensamentos que o fazer tem,
Que o acto da carne natural irrompa
Como o mijar quando a vontade vem!
Fá-los unir, beijar e ajustar
Um ao outro em saber natural,
E que a noite, prestes, os venha ensinar,
Que, na juventude, uso e abuso é igual.
Que eles repitam o nó a verter, verter
O seu gozo até mais não poder!
Ah, e que a noite paire sobre o repetido
Darem-se no escuro, até que o pensar
Se extinga e o sono ao corpo ferido
Desça, na boca os seus nomes a murmurar,
Nos braços em laço ainda sonhando
Com o amor, e algo dele provando!
E se acordarem, ensina a retomar,
Pois uma hora foi já longo passar;
Até que a carne unida, que o ardor esmaga
No prazer, adormeça, enquanto a luz se esvai
De estrelas e o pálido céu a Leste cai
No arrepio em que a luz a noite apaga;
E num clamor jovem de vida e alegria
Venha aparecendo, quente, o novo dia.

 

1913

In POESIA INGLESA II , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 2000
Fernando Pessoa
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