A espada inexorável que flameja
No horizonte dum povo impenitente,
E não poupa, na ameaça indiferente,
Nem tugúrio, nem paço, nem igreja;

O gládio que encoberto peregrino
Ergue, imprevisto, nas humanas liças,
A espada das históricas justiças,
A espada de Deus e do Destino;

De que pensais que é feita? Porventura
Pensais que é feita dum metal terreno,
Cheio de jaça e fezes, e em veneno
Temperado talvez por mão impura?

Que é feita de cobiça e violência?
E de ódios cegos, brutos, truculentos?
De cobardes e falsos pensamentos?
De ultraje, de furor e de demência?

Quanto vos iludis, irmãos! Sabei-o,
Homens de pouca fé! sabei que a espada
Sinistra e em cuja folha esbraseada
Uma palavra em língua estranha eu leio,

Que esse rubro sinal de mudo espanto,
Fixo, pregado ali num céu terrível,
Contínuo, inquebrantável, inflexível
À prece, à ameaça, à dor, ao pranto,

Que essa espada da morte e do pavor
É só feita de Bem inalterável,
De Verdade ideal e impecável…
E que esse açoite é feito só de Amor!

Sabei, povos, que em horas de demência
Amaldiçoais a mão que vos castiga:
Essa inflexível mão é mão amiga,
É a mão paternal da Providência!

 


In Odes Modernas
Antero de Quental
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