Feliz aquele a quem a vida grata
Concedeu que dos deuses se lembrasse
      E visse como eles
Estas terrenas coisas onde mora
Um reflexo mortal da imortal vida.
Feliz, que quando a hora tributária
Transpor seu átrio porque a Parca corte
      O fio fiado até ao fim,
      Gozar poderá o alto prémio
      De errar no Averno grato abrigo
      Da convivência

Mas aquele que quer Cristo’ antepor
Aos mais antigos Deuses que no Olimpo
      Seguiram a Saturno —
O seu blasfemo ser abandonado
Na fria expiação — até que os Deuses
De quem se esqueceu deles se recordem —
Erra, sombra inquieta, eternamente,
      Nem a viúva lhe põe na boca
      O óbolo a Caronte grato,
      E sobre o seu corpo insepulto
      Não deita terra o viandante.

11/12-9-1916

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
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