No céu da noite que começa  
Nuvens de um vago negro brando
Numa romagem pouco espessa
Vão no horizonte tresmalhando.

Aos sonhos que não sei me entrego
Sem nada procurar sentir
E estou em mim como  em sossego,
P’ra o sono falta-me dormir.

Deixei atrás nas ervas ralas
Caídas uma e outra ilusão,
Não volto atrás a procurá-las.
Já estão formigas onde estão.
27 - 7 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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