(...) Quando as raparigas punham todo o peso da sua esmagadora juventude
no pé e o pé no pó das antigas estradas a caminho das fontes
onde a água corria pelos vagarosos dias desse tempo
quando os cortesãos nos refeitórios de alto pé direito e telha vã
renovavam as rosas do colar murchas com o calor
antes de cavalgarem toda a noite pelos campos até de madrugada
quando não só as salas mas as vidas não ficavam
de repente vazias de convivas
que temiam olhar uns para os outros e medir nesse olhar as dimensões da solidão
e só sentiam como algum remédio para a solidão
abrir as salas aos nocturnos bois dos campos circundantes
quando de repente os dias começavam a correr
na indisciplinada vibração do perigo
ou se não demoravam na hábil e discreta
sondagem dos menores movimentos dos antigos povos
quando pelos jardins passavam as hirtas e rígidas escravas
quebradas na cintura pelos seus cintos de seda
e era bem mais fácil manter o equilíbrio estival da humidade dos pés
quando os homens se compraziam em falar do vento
a propósito do movimento vivo ou lento dos canaviais
a associar tempo e vento para decretar
que coisas idas com o vento não regressam mais
quando a prosperidade vinha nessa mansa sujeição aos frutos anuais
e casos de prudência e fortaleza eram minuciosamente inscritos nas crónicas reais
quando os alicerces da alegria se cavavam nesse fumo branco que subia dos altares
e não se dava o nome de humildade à coragem mais íntima
nem o de gratidão ao facto de banir um cortesão qualquer
pois inúmeras vítimas conviviam com os reis
quando o tédio não era em tempos prósperos
a inútil herança de uma antiquíssima experiência
e não havia encontros com as trevas nem desejos
satisfeitos jamais se mais se prolongavam e se renovavam
quando as árvores de ariccia protegiam ainda os sacerdotes de diana
e as pátrias não eram como agora o sítio onde se morre (...)
      
(…)


(…) Por outras palavras trata-se de inês e trata-se de Pedro
ou Pedro tratará talvez mais uma vez de inês

Que tudo o mais se esqueça na presença do mosteiro de santa maria de alcobaça
cerca do ano de mil cento e cinquenta e dois começado a construir para depois
ver afluir de Claraval e de Tarouca essa gente de tanto mas tão pouca
os monges de Cister e de bernardo o amigo de deus mas inimigo de abelardo
É a maior igreja portuguesa e alicerça essa grandeza
nas três traves que no silêncio talha com a precisão de uma navalha
e na grande desproporção entre  a pouca largura e a altura
O mistério dos mares tenebrosos tem ali silêncios rasos
navegantes de pé entre o dossel do céu e a cama da maré
jazem serenos hoje nessa lousa onde o tempo apenas pousa
e só com a minha lâmina de aço língua de toledo os ameaço
No túmulo deitada inês parece a própria placidez
ela que em vida ouvindo alguém chamar
julgava respirar esse cheiro envolvente português
dos laranjais e jamais a nave donde nunca mais
havia de sair não já para criança inaugurar
o dia a dia o vasto espaço onde cada folha
dos plátanos e até canas e oliveiras
valem humildemente mais do que a melhor palavra minha
mas sim ver só o inevitável renascer
da morte e vir tal como ela de Castela com o vento
que vindo donde vêm como vêm
nessas vozes fechadas como pedra até esse país que há muito herda
a fala de um mudável mar que só sobre o seu som instável é capaz de edificar
terra de um lado águas do mar do outro o que leva o povo a dizer
que portugueses e espanhóis não os quer deus juntos um dia ver
e vento e casamento vindos de onde vêm
o povo em portugal sempre teve por mal
inês mais pedra que osso nunca ela concebeu ou quis
esses ossos não há muito ainda finos dedos
somente porque de repente à morte dados
inês jamais sonhou ser tão feliz como apagada agora com giz
e num momento sempre jaz por fim em paz
indiferente ao sol segregado na nave esse sol tão expansivo sobre a neve
na neve percursora do anoitecer e
dos instantâneos monumentos levantados sobre a água
pássaro talvez não tanto pelo voo como pela concentração de uma  aparente pequenez
inês ave que vindo o derradeiro outono
enfim acha repouso  no regaço do destino
como em mãos de um menino um pardal assustado
que os abertos céus sulcou e tão pouco voltou
como se nunca houvesse sido mais do que possível
naquela posição tão imutável e tão impassível
como o que adere à terra como um simples mineral
Que sei pergunta ela para sempre imóvel
no túmulo de pedra inamovível que sei eu desse homem tão instável
mais triste e mais sozinho quanto mais alegre e rodeado
que ao dar-me um outro nome como que me deu um novo ser
e a quem toda me dei como se dá em parte
na arte mais do que no amor
Que sei eu de Pedro esse homem de palavras
esse inventor de nomes com certeza mais reais
após haverem sido mais criados do que as próprias coisas
Que são duas as lousas nem sequer o sabe
nem na cabeça sob o baldaquino dela cabe
o medo de saber certo e definitivo
que Pedro mais que rei foi permanentemente fugitivo
e fugiu mais de si mesmo que da terra ou que da grei
Eu canto os amores e a morte a apoteose e a sorte
dessa que tão horizontal em pedra jaz e esse Pedro neto desse trovador de quem                   [se diz
que sempre dom Dinis fez o que quis
O círculo amoroso cerca a sociedade
mas por fim a cidade é vencedora do amor
e há serenidade na cidade
Na igreja abacial de santa maria de alcobaça
os que em vida se amaram  para sempre se juntaram (…)

 

(…)

(…) Tintinambulam festivos os sinos
e pedro aos pés de inês a seroar
esperando persistente o novo sol
E a fadiga faz de cada laje um leito
e já não pode alguém agora perturbar seu pétreo sono
embora caiam folhas sobre o derradeiro beijo
Também é pétrea a noite para pedro
como de pedra são seus pensamentos e palavras
Lembro a face da terra em que te amei e lembro os
tampos madrugadores de coimbra
por onde bem me lembra eu corria a montear
junto às rolas que arrulham no pinhal vizinho
Hoje sinto na alma a tua alma
ouvem melhor na morte os teus ouvidos
a nossa boda é eterna agora
Ressuscitavas tu quando eu nascia
sulcam a densa escuridão da noite
sonhos de sangue de uma hiena triste
Mil vezes tu morreste em minha carne
e era a tua pele a flor da minha solidão
e tão tristes as mãos feridas sob o sol
asas quebradas de pássaros mortos
um par de asas multiplicado em cada ave morta
O teu sangue o meu vinho a minha água as lágrimas
e o pão que mordo é a memória do teu corpo
o procuro o meu sol na solidão
Mas a noite descia um dia sobre ti
e a montaria era a impossível alegria
vislumbrada no ponto mais recôndito do dia
E pelos desolados descampados de todas as beiras
eu galopava entre halalis e vento
até mesmo aos javardos indiferentes
fugia de mim mesmo atrás dos galgos
E nas frágoas dos montes ou coxins dos paços
às vezes tive pouso mas jamais repouso
Fui cúmplice das coisas contra mim
e um torrão de terra era uma pedra de loucura
e as árvores cingiam-se de sombra
e contra mim na sombra conspiravam
A inês não é possível pois quem quero é a impossível inês
mais que reinar em portugal eu reino em ti de vez
Nem a dor me doeu em tudo tinha a vida
coimbra corpo meu diário pão
nem mesmo a mais pequena das laranjas
perdida no perfume dos pomares de coimbra
desconhece talvez quem foi e continua a ser inês
embora nunca a flor da laranjeira
em seus cabelos louros alvejasse
Choupos e sinos rouxinóis e olivais
reflectidos num rio que nem por muito correr
em mar algum se define jamais
a sã fraternidade do mondego
leal embora limitado à água
que fica só na medida em que passa
o sol a terra o rio tudo em teu cabelo
Tu amavas o sol perdidamente
e tudo te pedia um pouco do perfume do pomar
aurora não do dia aurora do amor
alegria tão forte que causava dor
nave de pedra em luz transfigurada
Há cotovias já no teu silêncio
há coisas de outra idade neste dia
que afugentou os rouxinóis da noite
É manhã nas estrelas vai alguém casar
pedra de pedra pedra intensamente
testamento lavrado sendo já alto o serão
alguém casou alguém morreu de amor
após a sua postrimeira dor
Talvez um dia eu volte lá dessa cidade
somente  minha e de  mais  ninguém
A vida era a mágoa para mim que só pedia
a beleza contida num pequeno copo de água
Ninguém profundamente me conhece
nem talvez isso interesse a alguém
e aos íntimos menos que a ninguém
Bailador e monteiro e justiceiro
pedro primeiro pedro derradeiro

 


In A Margem da Alegria
Ruy Belo
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