Na margem verde da estrada
Os malmequeres são meus.
Já trago a alma cansada —
Não é disso: é de Deus.
 
Se Deus me quisesse dá-la
Havia de achar maneira...
A estrada de cá da vala
Tem malmequeres à beira.

Se os quero, colho-os e tenho
Cuidado com os partir
Cada um que vejo e apanho
Dá um estalinho ao sair.

São malmequeres aos molhos
Iguaizinhos para ver
E nem põe neles os olhos
Dá a mão p’ra os receber.

Não é esmola que envergonhe,
Nem coisa dada sem mais.
É p’ra que a menina os ponha
Onde o peito dá sinais.

Tirei-os do campo ao lado
Para a menina os trazer...
E nem me mostra o agrado
De um olhar para me ver...

E assim a minha sina.
Tirei-os de onde iam bem
Só para os dar à menina, —
E agradeceu-me a ninguém.

31 - 7 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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