Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
      Panteão que preside
      À nossa vida incerta.

Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
      Trouxe algo que faltava
      Ao número dos divos.

Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
      Vai enxugar o pranto
      Dos humanos que sofrem.

Não venham, porém, stultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
      Das presenças maiores
      E eguales da tua.

A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
      Supersticiosos leigos
      Na ciência dos deuses.

Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
      Cada vez maior força
      Plo número maior.

Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
      Nós homens nos façamos
      Unidos pelos deuses.

9 - 10 - 1916

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
[[NÃO A TI MAS AOS TEUS ODEIO CRISTO.]]
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