Pela tarde de outono onde o verão
Deixou rastos ainda, e a escuridão
É de fogo já baço no horizonte —
Por esta tarde onde indecisamente
O vento vago paira como insonte
De sua vinda morna e □,
 
Por esta tarde sem esp’ranças meço
Todo o vácuo exterior da minha vida,
E eu, que nada quero e nada peço
Eu, a quem nada traz a dolorida
Felicidade da renúncia, ou a hora
Sentidamente diferida
Mas sempre tida como precursora —

Meço todo este vácuo que sou eu
E, sem pasmo, nesse meu existir, olho
Meu ser que não sei onde se perdeu
Que sem felicidade ou indústria colho
A dias casuais que a Dor me deu...

5 - 10 - 1916

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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