1
Tiveram longamente na cidade,
Sem vender-se, a fazenda os dous feitores,
Que os Infiis, por manha e falsidade,
Fazem que no lha comprem mercadores;
Que todo seu propsito e vontade
Era deter ali os descobridores
Da ndia tanto tempo, que viessem
De Meca as naus, que as suas desfizessem.

2
L no seio Eritreu, onde fundada
Arsnoe foi do Egpcio Ptolomeu
(Do nome da irm sua assi chamada,
Que despois em Suez se converteu),
No longe, o porto jaz da nomeada
Cidade Meca, que se engrandeceu
Com a superstio falsa e profana
Da religiosa gua Maometana.

3
Gid se chama o porto, aonde o trato
De todo o Roxo Mar mais florecia,
De que tinha proveito grande e grato
O Soldo que esse Reino possua.
Daqui aos Malabares, por contrato
Dos Infiis, fermosa companhia
De grandes naus, pelo ndico Oceano,
Especiaria vem buscar cada ano.

4
Por estas naus os Mouros esperavam,
Que, como fossem grandes e possantes,
Aquelas que o comrcio lhe tomavam
Com flamas abrasassem crepitantes.
Neste socorro tanto confiavam,
Que j no querem mais dos navegantes
Seno que tanto tempo ali tardassem,
Que da famosa Meca as naus chegassem.

5
Mas o Governador dos Cus e gentes,
Que, pera quanto tem determinado,
De longe os meios d convenientes
Por onde vem a efeito o fim fadado,
Influiu piadosos acidentes
De afeio em Monaide, que guardado
Estava pera dar ao Gama aviso,
E merecer por isso o Paraso.

6
Este, de quem se os Mouros no guardavam,
Por ser Mouro como eles, (antes era
Participante em quanto maquinavam),
A teno lhe descobre torpe e fera.
Muitas vezes as naus que longe estavam
Visita, e com piedade considera
O dano sem razo que se lhe ordena
Pela maligna gente Sarracena.

7
Informa o cauto Gama das armadas
Que de Arbica Meca vem cada ano,
Que agora so dos seus to desejadas,
Pera ser instrumento deste dano.
Diz-lhe que vm de gente carregadas
E dos troves horrendos de Vulcano,
E que pode ser delas oprimido,
Segundo estava mal apercebido.

8
O Gama, que tambm considerava
O tempo que pera a partida o chama,
E que despacho j no esperava
Milhor do Rei, que os Maometanos ama,
Aos feitores que em terra esto, mandava
Que se tornem s naus; e, por que a fama
Desta sbita vinda os no impida,
Lhe manda que a fizessem escondida.

9
Porm no tardou muito que, voando,
Um rumor no soasse, com verdade:
Que foram presos os feitores, quando
Foram sentidos vir-se da cidade.
Esta fama as orelhas penetrando
Do sbio Capito, com brevidade
Faz represria nuns que s naus vieram
A vender pedraria que trouxeram.

10
Eram, estes, antigos mercadores,
Ricos em Calecu e conhecidos.
Da falta deles, logo entre os milhores
Sentido foi que esto no mar retidos.
Mas j nas naus os bons trabalhadores
Volvem o cabrestante e, repartidos
Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,
Outros quebram co peito duro a barra,

11
Outros pendem da verga e j desatam
A vela, que com grita se soltava,
Quando, com maior grita, ao Rei relatam
A pressa com que a armada se levava.
As mulheres e filhos, que se matam,
Daqueles que vo presos, onde estava
O Samorim se aqueixam que perdidos
Uns tm os pais, as outras os maridos.

12
Manda logo os feitores Lusitanos
Com toda sua fazenda, livremente,
Apesar dos imigos Maometanos,
Por que lhe torne a sua presa gente.
Desculpas manda o Rei de seus enganos;
Recebe o Capito de melhor mente
Os presos que as desculpas e, tornando
Alguns negros, se parte, as velas dando.

13
Parte-se costa abaxo, porque entende
Que em vo co Rei gentio trabalhava
Em querer dele paz, a qual pretende
Por firmar o comrcio que tratava.
Mas, como aquela terra, que se estende
Pela Aurora, sabida j deixava,
Com estas novas torna ptria cara,
Certos sinais levando do que achara.

14
Leva alguns Malabares, que tomou
Per fora, dos que o Samorim mandara
Quando os presos feitores lhe tornou;
Leva pimenta ardente, que comprara;
A seca flor de Banda no ficou;
A noz e o negro cravo, que faz clara
A nova ilha Maluco, co a canela
Com que Ceilo rica, ilustre e bela.

15
Isto tudo lhe houvera a diligncia
De Monaide fiel, que tambm leva,
Que, inspirado de Anglica influncia,
Quer no livro de Cristo que se escreva.
Oh! Ditoso Africano, que a clemncia
Divina assi tirou de escura treva,
E to longe da ptria achou maneira
Pera subir Ptria verdadeira.

16
Apartadas assi da ardente costa
As venturosas naus, levando a proa
Pera onde a Natureza tinha posta
A meta Austrina da Esperana Boa,
Levando alegres novas e reposta
Da parte Oriental pera Lisboa,
Outra vez cometendo os duros medos
Do mar incerto, tmidos e ledos.

17
O prazer de chegar ptria cara,
A seus penates caros e parentes,
Pera contar a peregrina e rara
Navegao, os vrios cus e gentes,
Vir a lograr o prmio que ganhara,
Por to longos trabalhos e acidentes,
Cada um tem por gosto to perfeito,
Que o corao para ele vaso estreito.

18
Porm a Deusa Cpria, que ordenada
Era, pera favor dos Lusitanos,
Do Padre Eterno, e por bom gnio dada,
Que sempre os guia j de longos anos,
A glria por trabalhos alcanada,
Satisfao de bem sofridos danos,
Lhe andava j ordenando, e pretendia
Dar-lhe, nos mares tristes, alegria.

19
Despois de ter um pouco revolvido
Na mente o largo mar que navegaram,
Os trabalhos que pelo Deus nascido
Nas Anfinias Tebas se causaram,
J trazia de longe no sentido,
Pera prmio de quanto mal passaram,
Buscar-lhe algum deleite, algum descanso,
No Reino de cristal, lquido e manso;

20
Algum repouso, enfim, com que pudesse
Refocilar a lassa humanidade
Dos navegantes seus, como interesse
Do trabalho que encurta a breve idade.
Parece-lhe razo que conta desse
A seu filho, por cuja potestade
Os Deuses faz decer ao vil terreno
E os humanos subir ao Cu sereno.

21
Isto bem revolvido, determina
De ter-lhe aparelhada, l no meio
Das guas, algũa nsula divina,
Ornada d’ esmaltado e verde arreio;
Que muitas tem no reino que confina
Da primeira co terreno seio,
Afora as que possui soberanas
Pera dentro das portas Herculanas.

22
Ali quer que as aquticas donzelas
Esperem os fortssimos bares
(Todas as que tm ttulo de belas,
Glria dos olhos, dor dos coraes),
Com danas e coreias, porque nelas
Influir secretas afeies,
Pera com mais vontade trabalharem
De contentar a quem se afeioarem.

23
Tal manha buscou j, pera que aquele
Que de Anquises pariu, bem recebido
Fosse no campo que a bovina pele
Tomou de espao, por sutil partido.
Seu filho vai buscar, porque s nele
Tem todo seu poder, fero Cupido,
Que, assi como naquela empresa antiga
A ajudou j, nestoutra a ajude e siga.

24
No carro ajunta as aves que na vida
Vo da morte as exquias celebrando,
E aquelas em que j foi convertida
Perstera, as boninas apanhando.
Em derredor da Deusa, j partida,
No ar lascivos beijos se vo dando.
Ela, por onde passa, o ar e o vento
Sereno faz, com brando movimento.

25
J sobre os Idlios montes pende,
Onde o filho frecheiro estava ento,
Ajuntando outros muitos, que pretende
Fazer ũa famosa expedio
Contra o mundo revelde, por que emende
Erros grandes que h dias nele esto,
Amando cousas que nos foram dadas
No pera ser amadas, mas usadas.

26
Via Acton na caa to austero,
De cego na alegria bruta, insana,
Que, por seguir um feio animal fero,
Foge da gente e bela forma humana;
E por castigo quer, doce e severo,
Mostra-lhe a fermosura de Diana.
(E guarde-se no seja inda comido
Desses ces que agora ama, e consumido.)

27
E v do mundo todo os principais
Que nenhum no bem pbrico imagina;
V neles que no tm amor a mais
Que a si somente, e a quem Filucia ensina;
V que esses que frequentam os reais
Paos, por verdadeira e s doutrina
Vendem adulao, que mal consente
Mondar-se o novo trigo florecente.

28
V que aqueles que devem pobreza
Amor divino, e ao povo, caridade,
Amam somente mandos e riqueza,
Simulando justia e integridade.
Da feia tirania e de aspereza
Fazem direito e v severidade.
Leis em favor do Rei se estabelecem;
As em favor do povo s perecem.

29
V, enfim, que ningum ama o que deve,
Seno o que somente mal deseja.
No quer que tanto tempo se releve
O castigo que duro e justo seja.
Seus ministros ajunta, por que leve
Exrcitos conformes peleja
Que espera ter co a mal regida gente
Que lhe no for agora obediente.

30
Muitos destes mininos voadores
Esto em vrias obras trabalhando:
Uns amolando ferros passadores,
Outros hstias de setas delgaando.
Trabalhando, cantando esto de amores,
Vrios casos em verso modulando;
Melodia sonora e concertada,
Suave a letra, anglica a soada.

31
Nas frguas imortais, onde forjavam
Pera as setas as pontas penetrantes,
Por lenha coraes ardendo estavam,
Vivas entranhas inda palpitantes.
As guas, onde os ferros temperavam,
Lgrimas so de mseros amantes;
A viva flama, o nunca morto lume,
Desejo s que queima e no consume.

32
Alguns exercitando a mo andavam
Nos duros coraes da plebe ruda;
Crebros suspiros pelo ar soavam
Dos que feridos vo da seta aguda.
Fermosas Ninfas so as que curavam
As chagas recebidas, cuja ajuda
No somente d vida aos mal feridos,
Mas pe em vida os inda no nascidos.

33
Fermosas so algũas e outras feias,
Segundo a qualidade for das chagas,
Que o veneno espalhado pelas veias
Curam-no s vezes speras triagas.
Alguns ficam ligados em cadeias
Por palavras sutis de sbias magas.
Isto acontece s vezes, quando as setas
Acertam de levar ervas secretas.

34
Destes tiros assi desordenados,
Que estes moos mal destros vo tirando,
Nascem amores mil desconcertados
Entre o povo ferido miserando;
E tambm nos heris de altos estados
Exemplos mil se vem de amor nefando,
Qual o das moas Bbli e Cinireia,
Um mancebo de Assria, um de Judeia.

35
E vs, poderosos, por pastoras
Muitas vezes ferido o peito vedes;
E por baixos e rudos, vs, senhoras,
Tambm vos tomam nas Vulcneas redes.
Uns esperando andais nocturnas horas,
Outros subis telhados e paredes;
Mas eu creio que deste amor indino
mais culpa a da me que a do minino.

36
Mas j no verde prado o carro leve
Punham os brancos cisnes mansamente;
E Dione, que as rosas entre a neve
No rosto traz, decia diligente.
O frecheiro que contra o Cu se atreve
A receb-la vem, ledo e contente;
Vm todos os Cupidos servidores
Beijar a mo Deusa dos amores.

37
Ela, por que no gaste o tempo em vo,
Nos braos tendo o filho, confiada
Lhe diz: «Amado filho, em cuja mo
Toda minha potncia est fundada;
Filho, em quem minhas foras sempre esto,
Tu, que as armas Tifeias tens em nada,
A socorrer-me a tua potestade
Me traz especial necessidade.

38
«Bem vs as Lusitnicas fadigas,
Que eu j de muito longe favoreo,
Porque das Parcas sei, minhas amigas,
Que me ho-de venerar e ter em preo;
E, porque tanto imitam as antigas
Obras de meus Romanos, me ofereo
A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso,
A quanto se estender o poder nosso.

39
«E, porque das insdias do odioso
Baco foram na ndia molestados,
E das injrias ss do mar undoso
Puderam mais ser mortos que cansados,
No mesmo mar, que sempre temeroso
Lhe foi, quero que sejam repousados,
Tomando aquele prmio e doce glria
Do trabalho que faz clara a memria.

40
«E pera isso queria que, feridas
As filhas de Nereu no ponto fundo,
De amor dos Lusitanos incendidas,
Que vm de descobrir o novo mundo,
Todas nũa ilha juntas e subidas,
(Ilha que nas entranhas do profundo
Oceano terei aparelhada,
De des de Flora e Zfiro adornada);

41
«Ali, com mil refrescos e manjares,
Com vinhos odorferos e rosas,
Em cristalinos paos singulares,
Fermosos leitos, e elas mais fermosas;
Enfim, com mil deleites no vulgares,
Os esperem as Ninfas amorosas,
De amor feridas, pera lhe entregarem
Quanto delas os olhos cobiarem.

42
«Quero que haja no reino Neptunino
Onde eu nasci, prognie forte e bela,
E tome exemplo o mundo vil, malino,
Que contra tua potncia se revela,
Por que entendam que muro Adamantino
Nem triste hipocrisia val contra ela.
Mal haver na terra quem se guarde,
Se teu fogo imortal nas guas arde.»

43
Assi Vnus props; e o filho inico,
Pera lhe obedecer, j se apercebe:
Manda trazer o arco ebrneo rico,
Onde as setas de ponta de ouro embebe.
Com gesto ledo a Cpria, e impudico,
Dentro no carro o filho seu recebe;
A rdea larga s aves cujo canto
A Faetonteia morte chorou tanto.

44
Mas diz Cupido que era necessria
Ũa famosa e clebre terceira,
Que, posto que mil vezes lhe contrria,
Outras muitas a tm por companheira:
A Deusa Giganteia, temerria,
Jactante, mentirosa e verdadeira,
Que com cem olhos v, e, por onde voa,
O que v, com mil bocas apregoa.

45
Vo-na buscar e mandam-na diante,
Que celebrando v, com tuba clara,
Os louvores da gente navegante,
Mais do que nunca os de outrem celebrara.
J, murmurando, a Fama penetrante
Pelas fundas cavernas se espalhara;
Fala verdade, havida por verdade,
Que junto a Deusa traz Credulidade.

46
O louvor grande, o rumor excelente,
No corao dos Deuses, que indinados
Foram por Baco contra a ilustre gente,
Mudando, os fez um pouco afeioados.
O peito feminil, que levemente
Muda quaisquer propsitos tomados,
J julga por mau zelo e por crueza
Desejar mal a tanta fortaleza.

47
Despede nisto o fero moo as setas,
Ũa aps outra: geme o mar cos tiros;
Direitas pelas ondas inquietas
Algũas vo, e algũas fazem giros;
Caem as Ninfas, lanam das secretas
Entranhas ardentssimos suspiros;
Cai qualquer, sem ver o vulto que ama,
Que tanto como a vista pode a fama.

48
Os cornos ajuntou da ebrnea Lũa,
Com fora, o moo indmito, excessiva,
Que Ttis quer ferir mais que nehũa,
Porque mais que nehũa lhe era esquiva.
J no fica na aljava seta algũa,
Nem nos equreos campos Ninfa viva;
E se, feridas, inda esto vivendo,
Ser pera sentir que vo morrendo.

49
Dai lugar, altas e cerleas ondas,
Que, vedes, Vnus traz a medicina,
Mostrando as brancas velas e redondas,
Que vm por cima da gua Neptunina.
Pera que tu recproco respondas,
Ardente Amor, flama feminina,
forado que a pudiccia honesta
Faa quanto lhe Vnus amoesta.

50
J todo o belo coro se aparelha
Das Nereidas, e junto caminhava
Em coreias gentis, usana velha,
Pera a ilha a que Vnus as guiava.
Ali a fermosa Deusa lhe aconselha
O que ela fez mil vezes, quando amava.
Elas, que vo do doce amor vencidas,
Esto a seu conselho oferecidas.

51
Cortando vo as naus a larga via
Do mar ingente pera a ptria amada,
Desejando prover-se de gua fria
Pera a grande viagem prolongada,
Quando, juntas, com sbita alegria,
Houveram vista da Ilha namorada,
Rompendo pelo cu a me fermosa
De Mennio, suave e deleitosa.

52
De longe a Ilha viram, fresca e bela,
Que Vnus pelas ondas lha levava
(Bem como o vento leva branca vela)
Pera onde a forte armada se enxergava;
Que, por que no passassem, sem que nela
Tomassem porto, como desejava,
Pera onde as naus navegam, a movia
A Acidlia, que tudo, enfim, podia.

53
Mas firme a fez e imbil, como viu
Que era dos Nautas vista e demandada,
Qual ficou Delos, tanto que pariu
Latona Febo e a Deusa caa usada.
Pera l logo a proa o mar abriu,
Onde a costa fazia ũa enseada
Curva e quieta, cuja branca areia
Pintou de ruivas conchas Citereia.

54
Trs fermosos outeiros se mostravam,
Erguidos com soberba graciosa,
Que de gramneo esmalte se adornavam,
Na fermosa Ilha, alegre e deleitosa.
Claras fontes e lmpidas manavam
Do cume, que a verdura tem viosa;
Por entre pedras alvas se deriva
A sonorosa linfa fugitiva.

55
Num vale ameno, que os outeiros fende,
Vinham as claras guas ajuntar-se,
Onde ũa mesa fazem, que se estende
To bela quanto pode imaginar-se.
Arvoredo gentil sobre ela pende,
Como que pronto est pera afeitar-se,
Vendo-se no cristal resplandecente,
Que em si o est pintando propriamente.

56
Mil rvores esto ao cu subindo,
Com pomos odorferos e belos;
A laranjeira tem no fruito lindo
A cor que tinha Dafne nos cabelos.
Encosta-se no cho, que est caindo,
A cidreira cos pesos amarelos;
Os fermosos limes ali, cheirando,
Esto virgneas tetas imitando.

57
As rvores agrestes, que os outeiros
Tm com frondente coma enobrecidos,
lemos so de Alcides, e os loureiros
Do louro Deus amados e queridos;
Mirtos de Citereia, cos pinheiros
De Cibele, por outro amor vencidos;
Est apontando o agudo cipariso
Pera onde posto o etreo Paraso.

58
Os des que d Pomona ali Natura
Produze, diferentes nos sabores,
Sem ter necessidade de cultura,
Que sem ela se do muito milhores:
As cereijas, purpreas na pintura,
As amoras, que o nome tm de amores,
O pomo que da ptria Prsia veio,
Milhor tornado no terreno alheio.

59
Abre a rom, mostrando a rubicunda
Cor, com que tu, rubi, teu preo perdes;
Entre os braos do ulmeiro est a jocunda
Vide, cuns cachos roxos e outros verdes;
E vs, se na vossa rvore fecunda,
Peras piramidais, viver quiserdes,
Entregai-vos ao dano que cos bicos
Em vs fazem os pssaros inicos.

60
Pois a tapearia bela e fina
Com que se cobre o rstico terreno,
Faz ser a de Aquemnia menos dina,
Mas o sombrio vale mais ameno.
Ali a cabea a flor Cifsia inclina
Sbolo tanque lcido e sereno;
Florece o filho e neto de Ciniras,
Por quem tu, Deusa Pfia, inda suspiras.

61
Pera julgar, difcil cousa fora,
No cu vendo e na terra as mesmas cores,
Se dava s flores cor a bela Aurora,
Ou se lha do a ela as belas flores.
Pintando estava ali Zfiro e Flora
As violas da cor dos amadores,
O lrio roxo, a fresca rosa bela,
Qual reluze nas faces da donzela;

62
A cndida cecm, das matutinas
Lgrimas rociada, e a manjarona;
Vem-se as letras nas flores Hiacintinas,
To queridas do filho de Latona;
Bem se enxerga nos pomos e boninas
Que competia Clris com Pomona.
Pois, se as aves no ar cantando voam,
Alegres animais o cho povoam.

63
A longo da gua o nveo cisne canta,
Responde-lhe do ramo filomela;
Da sombra de seus cornos no se espanta
Acteon na gua cristalina e bela;
Aqui a fugace lebre se levanta
Da espessa mata, ou tmida gazela;
Ali no bico traz ao caro ninho
O mantimento leve passarinho.

64
Nesta frescura tal desembarcavam
J das naus os segundos Argonautas,
Onde pela floresta se deixavam
Andar as belas Deusas, como incautas.
Algũas, doces ctaras tocavam,
Algũas, harpas e sonoras frautas;
Outras, cos arcos de ouro, se fingiam
Seguir os animais que no seguiam.

65
Assi lho aconselhara a mestra experta:
Que andassem pelos campos espalhadas;
Que, vista dos bares a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Algũas, que na forma descoberta
Do belo corpo estavam confiadas,
Posta a artificiosa fermosura,
Nuas lavar se deixam na gua pura.

66
Mas os fortes mancebos, que na praia
Punham os ps, de terra cobiosos
(Que no h nenhum deles que no saia),
De acharem caa agreste desejosos,
No cuidam que, sem lao ou redes, caia
Caa naqueles montes deleitosos,
To suave, domstica e benina,
Qual ferida lha tinha j Ericina.

67
Alguns, que em espingardas e nas bestas,
Pera ferir os cervos, se fiavam,
Pelos sombrios matos e florestas
Determinadamente se lanavam;
Outros, nas sombras que de as altas sestas
Defendem a verdura, passeavam
Ao longo da gua, que, suave e queda,
Por alvas pedras corre praia leda.

68
Comeam de enxergar sbitamente,
Por entre verdes ramos, vrias cores,
Cores de quem a vista julga e sente
Que no eram das rosas ou das flores,
Mas da l fina e seda diferente,
Que mais incita a fora dos amores,
De que se vestem as humanas rosas,
Fazendo-se por arte mais fermosas.

69
D Veloso, espantado, um grande grito:
— «Senhores, caa estranha (disse) esta!
Se inda dura o Gentio antigo rito,
A Deusas sagrada esta floresta.
Mais descobrimos do que humano esprito
Desejou nunca, e bem se manifesta
Que so grandes as cousas e excelentes
Que o mundo encobre aos homens imprudentes.

70
Sigamos estas Deusas, e vejamos
Se fantsticas so, se verdadeiras.»
Isto dito, veloces mais que gamos,
Se lanam a correr pelas ribeiras.
Fugindo as Ninfas vo por entre os ramos,
Mas, mais industriosas que ligeiras,
Pouco e pouco, sorrindo, e gritos dando,
Se deixam ir dos galgos alcanando.

71
De ũa os cabelos de ouro o vento leva,
Correndo, e de outra as fraldas delicadas;
Acende-se o desejo, que se ceva
Nas alvas carnes, sbito mostradas.
Ũa de indstria cai, e j releva,
Com mostras mais macias que indinadas,
Que sobre ela, empecendo, tambm caia
Quem a seguiu pela arenosa praia.

72
Outros, por outra parte, vo topar
Com as Deusas despidas, que se lavam;
Elas comeam sbito a gritar,
Como que assalto tal no esperavam.
Ũas, fingindo menos estimar
A vergonha que a fora, se lanavam
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que s mos cobiosas vo negando.

73
Outra, como acudindo mais depressa
vergonha da Deusa caadora,
Esconde o corpo na gua; outra se apressa
Por tomar os vestidos que tem fora.
Tal dos mancebos h que se arremessa,
Vestido assi e calado (que, co a mora
De se despir, h medo que inda tarde)
A matar na gua o fogo que nele arde.

74
Qual co de caador, sagaz e ardido,
Usado a tomar na gua a ave ferida,
Vendo [] rosto o frreo cano erguido
Pera a garcenha ou pata conhecida,
Antes que soe o estouro, mal sofrido
Salta n'gua e da presa no duvida,
Nadando vai e latindo: assi o mancebo
Remete que no era irm de Febo.

75
Leonardo, soldado bem disposto,
Manhoso, cavaleiro e namorado,
A quem Amor no dera um s desgosto,
Mas sempre fora dele mal tratado,
E tinha j por firme prossuposto
Ser com amores mal-afortunado,
Porm no que perdesse a esperana
De inda poder seu Fado ter mudana;

76
Quis aqui sua ventura que corria
Aps Efire, exemplo de beleza
Que mais caro que as outras dar queria
O que deu, pera dar-se, a Natureza.
J cansado, correndo, lhe dizia:
— « fermosura indina de aspereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Espera um corpo de quem levas a alma!

77
«Todas de correr cansam, Ninfa pura,
Rendendo-se vontade do inimigo;
Tu s de mi s foges na espessura?
Quem te disse que eu era o que te sigo?
Se to tem dito j aquela ventura
Que em toda a parte sempre anda comigo,
Oh! no na creias, porque eu, quando a cria,
Mil vezes cada hora me mentia.

78
«No canses, que me cansas; e, se queres
Fugir-me, por que no possa tocar-te,
Minha ventura tal, que, inda que esperes,
Ela far que no possa alcanar-te.
Espera; quero ver, se tu quiseres,
Que sutil modo busca de escapar-te;
E notars, no fim deste sucesso,
‘Tra la spica e la man qual muro he messo.’

79
«Oh! No me fujas! Assi nunca o breve
Tempo fuja de tua fermosura;
Que, s com refrear o passo leve,
Vencers da Fortuna a fora dura.
Que Emperador, que exrcito, se atreve
A quebrantar a fria da ventura
Que, em quanto desejei, me vai seguindo,
O que tu s fars no me fugindo?

80
«Pes-te da parte da desdita minha?
Fraqueza dar ajuda ao mais potente.
Levas-me um corao que livre tinha?
Solta-mo, e corrers mais levemente.
No te carrega essa alma to mesquinha
Que nesses fios de ouro reluzente
Atada levas? Ou, despois de presa,
Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?

81
«Nesta esperana s te vou seguindo:
Que ou tu no sofrers o peso dela,
Ou, na virtude de teu gesto lindo,
Lhe mudars a triste e dura estrela.
E, se se lhe mudar, no vs fugindo,
Que Amor te ferir, gentil donzela,
E tu me esperars, se Amor te fere;
E, se me esperas, no h mais que espere.»

82
J no fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mgoas que dizia.
Volvendo o rosto, j sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos ps do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.

83
Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos to suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manh e na sesta,
Que Vnus com prazeres inflamava,
Milhor expriment-lo que julg-lo;
Mas julgue-o quem no pode expriment-lo.

84
Destarte, enfim, conformes j as fermosas
Ninfas cos seus amados navegantes,
Os ornam de capelas deleitosas
De louro e de ouro e flores abundantes.
As mos alvas lhe davam como esposas;
Com palavras formais e estipulantes
Se prometem eterna companhia,
Em vida e morte, de honra e alegria.

85
Ũa delas, maior, a quem se humilha
Todo o coro das Ninfas e obedece,
Que dizem ser de Celo e Vesta filha,
O que no gesto belo se parece,
Enchendo a terra e o mar de maravilha,
O Capito ilustre, que o merece,
Recebe ali com pompa honesta e rgia,
Mostrando-se senhora grande e egrgia.

86
Que, despois de lhe ter dito quem era,
Cum alto exrdio, de alta graa ornado,
Dando-lhe a entender que ali viera
Por alta influio do imbil Fado,
Pera lhe descobrir da unida Esfera
Da terra imensa e mar no navegado
Os segredos, por alta profecia,
O que esta sua nao s merecia,

87
Tomando-o pela mo, o leva e guia
Pera o cume dum monte alto e divino,
No qual ũa rica fbrica se erguia,
De cristal toda e de ouro puro e fino.
A maior parte aqui passam do dia,
Em doces jogos e em prazer contino.
Ela nos paos logra seus amores,
As outras pelas sombras, entre as flores.

88
Assi a fermosa e a forte companhia
O dia quase todo esto passando
Nũa alma, doce, incgnita alegria,
Os trabalhos to longos compensando;
Porque dos feitos grandes, da ousadia
Forte e famosa, o mundo est guardando
O prmio l no fim, bem merecido,
Com fama grande e nome alto e subido.

89
Que as Ninfas do Oceano, to fermosas,
Ttis e a Ilha anglica pintada,
Outra cousa no que as deleitosas
Honras que a vida fazem sublimada.
Aquelas preminncias gloriosas,
Os triunfos, a fronte coroada
De palma e louro, a glria e maravilha:
Estes so os deleites desta Ilha.

90
Que as imortalidades que fingia
A antiguidade, que os Ilustres ama,
L no estelante Olimpo, a quem subia
Sobre as asas nclitas da Fama,
Por obras valerosas que fazia,
Pelo trabalho imenso que se chama
Caminho da virtude, alto e fragoso,
Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso,

91
No eram seno prmios que reparte,
Por feitos imortais e soberanos,
O mundo cos vares que esforo e arte
Divinos os fizeram, sendo humanos;
Que Jpiter, Mercrio, Febo e Marte,
Eneias e Quirino e os dous Tebanos,
Ceres, Palas e Juno com Diana,
Todos foram de fraca carne humana.

92
Mas a Fama, trombeta de obras tais,
Lhe deu no mundo nomes to estranhos
De Deuses, Semideuses, Imortais,
Indgetes, Hericos e de Magnos.
Por isso, vs que as famas estimais,
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
Despertai j do sono do cio ignavo,
Que o nimo, de livre, faz escravo.

93
E ponde na cobia um freio duro,
E na ambio tambm, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vcio da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vs, esse ouro puro,
Verdadeiro valor no do gente.
Milhor merec-los sem os ter,
Que possu-los sem os merecer.

94
Ou dai na paz as leis iguais, constantes,
Que aos grandes no dem o dos pequenos,
Ou vos vesti nas armas rutilantes,
Contra a Lei dos imigos Sarracenos:
Fareis os Reinos grandes e possantes,
E todos tereis mais e nenhum menos:
Possuireis riquezas merecidas,
Com as honras que ilustram tanto as vidas.

95
E fareis claro o Rei que tanto amais,
Agora cos conselhos bem cuidados,
Agora co as espadas, que imortais
Vos faro, como os vossos j passados.
Impossibilidades no faais,
Que quem quis, sempre pde; e numerados
Sereis entre os Heris esclarecidos
E nesta Ilha de Vnus recebidos.

Luís Vaz de Camões
OS LUSíADAS
Canto IX
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