Mote: Teus olhos, contas escuras, São duas Avé-Marias Do rosário de amarguras, Que eu rezo todos os dias. [Augusto Gil] Glosa Quando a dor me amargurar, Quando sentir penas duras, Só me podem consolar Teus olhos, contas escuras. Deles só brotam amores, Não há sombra d'ironias, Esses olhos sedutores São duas Avé-Marias. Se acaso a ira os vem turvar, Fazem-me sofrer torturas E as contas todas rezar Do rosário d'amarguras. Ou se os alaga a aflição, Peço p'ra ti alegrias Numa fervente oração Que eu rezo todos os dias.

Lisboa, Março, 1902

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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