Não venhas sentar-te à minha frente, nem a meu lado;
     Não venhas falar, nem sorrir.
Estou cansado de tudo, estou cansado,
     Quero só dormir.

Dormir até acordado, sonhando
     Ou até sem sonhar,
Mas envolto num vago abandono brando
     A não ter que pensar.
 
Nunca soube querer, nunca soube sentir, até
     Pensar não foi certo em mim.
Deitei fora entre urtigas o que era a minha fé,
     Escrevi numa página em branco, "Fim".
 
As princesas incógnitas ficaram desconhecidas,
     Os tronos prometidos não tiveram carpinteiro.
Acumulei em mim um milhão difuso de vidas,
     Mas nunca encontrei parceiro.
 
Por isso, se vieres, não te sentes a meu lado, nem fales.
     Só quero dormir, uma morte que seja
Uma coisa que me não rale nem com que tu te rales -
     Que ninguém deseja nem não deseja.

Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo
     As esperanças e ambições que tive,
E hoje sou apenas um suicídio tardo,
     Um desejo de dormir que ainda vive.
 
Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma,
     Como um barco abandonado,
Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma
     Sem se lhe saber o passado.
 
E o comandante do navio que segue deveras
     Entrevê na distância do mar
O fim do último representante das galeras,
     Que não sabia nadar.

28 - 8 - 1927

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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