Deveras?
Quem é que se fia
Em promessas?
E então dessas...
Deveras, Maria?
Sinceras?

Mas olha: acredita!
Acredita a valer.
Tudo pode ser.
Até
O teres a dita
De uma coisa ser o que é.
Às vezes acontece,
Ou porque parece
Ou porque a gente tem fé.

Deveras, Maria,
Ele disse...?
Se é verdade,
Desconfia.
Se é tolice,
Faze por crer.
A realidade
É não se saber.
Deixa-te ir!
Bem basta morrer.

 

20 - 8 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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