Quero ser livre, insincero,
Sem crença, dever ou posto.
Prisões, nem de amor as quero,
Não me amem, porque não gosto.

Quando canto o que não minto
E choro o que sucedeu,
E que esqueci o que sinto
E julgo que não sou eu.

De mim mesmo viandante
Colho as músicas na aragem,
Que a minha própria alma errante
É uma canção de viagem

E cai um grande e calmo efeito
De nada ter razão de ser
Do céu nulo como um direito
Na terra vil como um dever.

A chuva morta ainda ensopa
O chão nocturno do céu limpo,
E faço, sob a aguada roupa,
Figuras sociais a tempo.

 

 

26 - 8 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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