A Anio, que de amor solto fugia,
a bela Galateia em vo chamava,
e «Anio! Anio!»o eco respondia.

E agora consigo s falava,
ora co mar, ora coa triste sorte,
ora co Tejo, onde chorando estava:

«Pois me no ouve Anio em mal to forte,
ouvi, ondas, a propriedade que imitava
a causa por que estou chorando a morte;

que a troco de amor puro e de verdade
- quem haver no mundo que isto creia? -
me deixa em pranto e triste saudade.

Dizia-me: cruel minha Galateia,
primeiro que eu deixe o vosso Tejo,
tornar atrs co curso a rica areia.

Mas ai, triste de mim, que ainda vejo,
como dantes, levar ao Oceano
e a ti no, que s o que desejo!

Se com quem te deu a alma usaste engano,
ingrato quem espera de ti j agora
tirar nunca seno vergonha e dano?

Vs-te cruel, da ptria ........... fora
por esse mar entregue ao fero vento,
fugindo de quem te ama e quem te adora?

E deixas assim s ..... isento
esta pura corrente, este tranquilo
e sossegado porto ao fresco vento,

onde move um som com suave estilo
sem sobressaltos da aurora peregrina
a vontade de quem c quer ouvi-lo?

E se a rogos mortais o Cu inclina,
peo-lhe que o mar te traga e ponha espanto,
vingando-me da f falsa e malina,

por que a ningum to puro, honesto e santo
Amor deixar no queira, antes procure
louv-lo com suave e amoroso canto;

por que no haja algum que se assegure
a buscar por o mar injusto e fero
empregos em que a vida se aventure.

Mas sem ventura, ai! para que quero
a morte ver daquele ingrato e duro,
se dele j ter bem no espero?

Seja-lhe sempre o Cu sereno e puro;
o mar, o vento brando, a sorte amiga,
o porto que tomar firme e seguro,

para que nunca mais algum no diga
que minhas cousas foram causa ou parte
de ser-lhe irado o Cu, Fortuna imiga.

Oh, quo suave tu em toda parte
possas correr co Cu doce e brando
levaste este que me leva a melhor parte;

que eu por a sombra, por a luz passando,
ficarei sempre em minha dura sorte,
sem descansar uma hora suspirando:
ou veja Anio ou veja a dura morte.

Luís Vaz de Camões
[A AÓNIO QUE DE AMOR SOLTO FUGIA]
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