muito quieto espero
que se resolva alguma súbita e magnífica metamorfose
as melgas redobram de ferocidade procuram as veias
onde se processou a lenhosa primavera dos cardos
e o sangue vegetal de voláteis animais exala aromas
no peito ainda respiram as imensas noites
os países de surpreendentes neves...casulos seguros
rebentam na pele em constelações de seiva incandescente

depois
desenrolo as palavras adolescentes e recuo
até alcançar a visão perfeita do início
esses gatafunhos coloridos feitos com o primeiro lápis
a grafia das águas obstruída pelo corpo-mãe

regresso a mim
os dedos inchados pela humidade quase sólida da casa
o tempo é um desastre no torpor do voo... rasga-se
quando devasso o silêncio das casas onde vivi
e as cidades derretem-se na loucura...na morte
que entorpeceu o olhar no instante de envelhecer séculos

eu sei
este espelho incita-me à descoberta da morte
o rosto fissura-se e dele escorrem larvas
suaves bolores de ar múltiplas vozes...eu sei
este espelho reflecte o rosto que me engana

pernoito nos dentes da noite
suponho que vai amanhecer um destes dias
invento um coração aberto à invasão das ostras doentes
preparo-me para segregar a pérola do sono eterno
enquanto lá fora o mundo continua a segregar desastres

ouço o rumor assustador das formigas que não pararam
tudo recolhem e guardam.... longe deste sonho de verão

 


In O Medo
Al Berto
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