Os barcos passam no rio
E fazem-me chorar.
Não sei que quero, e há frio
No meu desejar.

Os barcos passam. As velas
São reais e tranquilas.
Minha dor é janelas
Sobre horas às filas.

Há realmente barcos
No rio exterior...
As pontes têm arcos
E isto faz-me dor.

Queria outra cousa
De acordo comigo.
Queria ser na alma
Como o vento ao trigo.

Há felicidade
Em ondear sem alma.
As paisagens tristes
Inda assim têm calma.

Só na minha dor.
Não há calma ou fim.
Sol tão exterior
À dor que há em mim!

 

15 - 3 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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