Como alguém que conserva na memória
Absurda uma paisagem sem razão,
A que o não liga sentimento ou ‘stória,
Mas que persiste sobre o coração,
Que ele não ama ou busca mas que inglória
Lhe aflige o pensamento,
Assim me queres sem um sentido;
Assim eu vivo em ti, casual e vão.

Mas vivo em ti. Às horas em que sonhas,
Nem sabes em que sonhas sem sonhar,
Entre recordações quasi risonhas
A que só falta o ser e o despertar,
Meu ar que te não vale, em que o suponhas,
Bóia em teu sonho, vago,
Como sombras no fundo de ermo lago
No silêncio longínquo do luar.
 
Nunca me amaste; apenas teu abstracto
Ser meu abstracto ser adivinhou,
Se me viste, esqueceste, mas o retrato
Do fantasma de mim que alheado sou,

Conheces, sem que o saibas, o destino
Que me fadou, adivinhaste o Rei.
Meu passado de incerto peregrino,
Meu ar alheio a condição ou lei,
Qualquer cousa de ti pôs em atino
Do estrangeiro presente
É a abstracta humanidade em ti que sente
É a abstracta humanidade que serei.

E a ti mesmo teu ser perguntaria
Se tivesse sentir-se p’ra o fazer,
Que memória ou □ encontraria
Neste humano e □ parecer,
Depois tornaste o olhar ao □ e ao dia
E nunca mais pensaste
Em mim, o humano absurdo que estranhaste,
A quem falaste sem o conhecer.
 
Os deuses com seu selo de mistério
À invisível presença □ dão,
Não é o aspecto □ ou funéreo
Nem a dor pressentida, ou a
É um hálito de fado □ e etéreo
Que põe aura e estranheza.
É uma sombra de quem sente a natureza,
Um □

Guarda, calmo e insciente, esse teu fado
Com que me esqueces, outro e natural;
Não me recordes mais, e que o passado
Seja a substância de um ser real
Para ti; nunca mais no teu sonhado
Existir, surja um gesto
Que lembre que me viste ou o contexto.
 
Olho, e sinto, com íntima estranheza
Que mal sentes, passando sobre mim
Teus olhos, que interrogam sem clareza.
Muitas vezes, sem qu’rer, me olhas assim.
Que pensas? Não o sei; nem tu, que és presa
De uma impressão furtiva
Que te interroga a meu respeito, e é viva
Sem que a nada que sentes, seja afim.

29 - 4 - 1924

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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