Num dia silencioso
E num quarto interior
Como soa doloroso
Um pregão de vendedor!

Devendo ter a alegria
Da rua e do céu que tem,
A voz soa longe, fria
Da própria vida a que vem.

Talvez o mal seja meu,
Que a voz, onde soa e está,
Não sabe que eu sinto e que eu
Sinto sempre o que não há.

Sinto que é a vida, que, enorme
Ao coração se me exprime.
É a vida, mas a dizer-me
Que dela não me aproxime.

24 - 3 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar