Primeiro sabem-se as respostas.
As perguntas chegam depois, 
como aves voltando a casa ao fim da tarde 
e pousando, uma a uma, no coração 
quando o coração já se recolheu 
de perguntas e de respostas. 

Que coração, no entanto, pode repousar 
com o restolhar de asas no telhado? 
A dúvida agita 
os cortinados 
e nos sítios mais íntimos da vida 
acorda o passado. 
Porquê, tão tardo, o passado? 

Se ficou por saldar algo 
com Deus ou com o Diabo 
e se é o coração o saldo 
porquê agora, Cobrança, 
quando medo e esperança 

se recolheram também sob 
lembranças extenuadas? 
Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas, 
e de poços, e de portas entreabertas, 
e sonham no escuro 
as coisas acabadas. 


In POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2001
Manuel António Pina
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