Tenho uma sede imensa, 
mas não é de água... 

mas não é de água... 
Tenho uma sede imensa de beber 
os soluços do Sol quando declina, 
as carícias azuis do Luar de Agosto, 
os tons rosa da Tarde que se fina... 

É que eu seria Poeta, se os bebesse... 
Não mais seria o cego de olhos limpos; 
esse que viu a água e a não tocou, 
pelo estranho pudor da sua boca 
que um dia blasfemou. 

E, se eu pudesse beber 
esses longes de mim que vejo e quero, 
em espasmos havia de os mudar 
e, num desejo nunca satisfeito, 
iria possuir-te, ó Mar! 

Havia de cair, num beijo, sobre ti; 
despir as minhas vestes de serrano, 
tirar de mim aquilo que é humano, 
e confundir-me em ti. 

Gritem depois, embora, que eu morri; 
alegre o Mundo o alfvio do meu peso; 
— que um dia o Sol há-de surgir mais cedo 
e o bom menino de olhos azuis, 
de quem sou fraco arremedo, 
há-de nascer, Ó Mar, da nossa noite de Amor! 

E tu, Menina que eu chamava, 
Menina que eu chamava e encontrei 
mas abrasada no amor divino 
—tu hás-de ver então que o Céu que idealizas 
é o olhar azul desse menino. 


In SERRA-MÃE , Ática, 1991
Sebastião da Gama
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