os dias estão cheios de cartas e de recomendações, de amigos que partem
para sempre, ou adoecem, de recados e de intrigas, de contas intermináveis, de
ouro, de corpos, de fortuna e de infortúnios.
de morte, e de cães feridos a uivar à porta da desolação.


uma espécie de miséria e de orgulho, escorrem no fundo de mim. e talvez
seja a mistura venenosa da miséria com o orgulho que me há-de perder…


não tenho mais nada a dizer. os poemas morreram.
fugir tornou-se uma obsessão, ou então é a melhor maneira de encenar o desespero.
bebi águas inquinadas.
vi o corpo suspenso no rebordo dos poço, o coração batendo
descontrolado.


mas a morte, quando se aproxima, é uma coisa simples… vem comer à
mão a cinza melodiosa dos dias.
por isso sei que, ao amanhecer, posso perguntar:
quantas africas murcharam na boca do amor?
quantas feras despedaçadas foram comidas ao entardecer?
quantos homens conseguiram apaziguar o relâmpago da paixão?
quantos desejos ficaram abandonados na escuridão intacta dos quartos?


a qual dos demónios me vender?
que besta suja será preciso adorar?
em que sangue contaminado mergulharei a língua?
que fogo estranho é este? que devora a beleza interior das coisas…
que mentira me poderá salvar?


uma golada de veneno e eis que se acende o talento.
o rumor precioso das sílabas. o choro e o riso.
o brilho gelado das imagens.
então ergo o cachimbo e fumo um tempo futuro, ajeito o cinturão onde
guardo o ouro – e vou pelo engano das palavras.


descubro a febre, a ânsia do eterno viajante.
abro as mãos, solto as borboletas e os pássaros – que dizem ser a alma dos mortos.
um espelho onde não me reconheço. mas o pior é que nunca acreditei no
que me disseram, e parti o espelho.


o azar nunca mais me largou, e também não posso dizer que os negócios
me tenham corrido bem.
foi maldição, dizem.
paciência. mas não há maldição sem desejo – e eu não paro de desejar,
sôfrego… capaz de arriscar a vida e a razão.
ou de matar.

 


In O Medo
Al Berto
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