No meio de uma alegria  às vezes
Empalideço em mim...
Inúmeros revezes 
Sinto de repente
E uma mágoa sem fim.

Penso às vezes, a medo, no futuro,
E sei que o meu futuro já existe.
Que já existe em Deus presente, e obscuro...

Sua existência já real e ainda
Fechada para mim dá-me pavor...
Com que trémulo e  terror
Meu ser se cola a Hoje e ao que finda...

Mudo terror do Espectro de Amanhã
Que como o espectro de um passado certo
Inevitável ser inda descoberto
Vem dar  à minha esp’rança vã.

Mas o que mais me esmaga é o que já sei —
Que ao fundo, longe ou não, da minha sorte
A porta inevitável para a morte
Se abrirá e sem tréguas eu serei

Aquela Nova Cousa inconcebível
Que me fará o corpo (a) perda e frio
E dará um aspecto de vazio


 espaço deixado em branco pelo autor.

22 - 7 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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