(E todos os anos canto a Primavera.)

 

Posso lá compreender os teus olhos resignados
com qualquer mecânica de Primavera!

Eu que estou farto das canções vazias dos pássaros
e dos montes de pedras
que já ninguém sabe quem criou
neste enredo da preguiça das árvores
a repetirem sonâmbulas
a herança azul
do primeiro caos da criação.

Eu que quero outra luz,
outro sol.
outra morte,
neste planeta de cadáveres
enfurecido de flores.

Eu que só choro diante das paisagens
quando me lembro que por dentro das pedras
corre, negro e escondido,
o sangue humano de todos os fuzilados,

A Primavera queremos nós criá-la.
Nós, os homens.


In Pessoais
José Gomes Ferreira
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