Este vem trôpego e cego
Lá das Flandres e das Franças,
Só para o Leote do Rego
Endireitar as finanças.
 
Este, que aos muros se encosta,
Veio doido lá da tropa,
Só porque o Afonso Costa
Queria ser gente na Europa.

Esse outro que tudo esquece
Assim vem
Só para que o Chagas pudesse
Passar por branco também.

Sem braços vem um a gemer
Já não tem maneiras jovens;
Só para o Norton vender
Caixotes por automóveis.

Vestem muitos da sua mágoa,
Comem muitos da sua morte,
Das lágrimas deles a água
Fez fértil muita sorte.

O teu filho veio cego,
Pobre mãe com dores aos molhos.
Olha, pede ao Leote do Rego
Que lhe arranje outros dois olhos.

A justiça de Deus é morta,
A casa da piedade
Não tem aldraba na porta
E tem em volta uma grade.

E a raça que descobriu
O oriente e o ocidente
Foi morrer de balas e frio
Para a cama dos Costas ser quente.

Quem é bom nunca é feliz,
Quem é mau é que tem razão;
O Afonso está em Paris
E o Sidónio num caixão.

Vendidos à Inglaterra,
Caixeiros da França vil,
Meteram a gente para a guerra
Como num cesto aos mil.

E não houve quem castigasse!
Nem o Rei para defender.
Porque em o Rei não havendo
Fica o povo sem □

A fome chove às carradas,
O filho morreu em França.

A quem dava aos pobres deram
Só duas balas por □
Àqueles que nos venderam
Nem a derrota foi má.

Porque é que Deus põe as cousas
De modo que os maus governem?

Até que para o lado da barra
Há-de vir um grande clarão,
E voltar, como diz o Bandarra,
El-Rei Dom Sebastião.

Porque mesmo quem não acredita
É preciso acreditar;
Quando a gente endoidece de aflita,
Até se abraça ao ar.

E o Sídónio está morto em Belém
E o Bernardino no mundo.

Mas o Quinto Império há-de vir
Prometido a Portugal.

Quem manda é quem compra e vende,
Quem presta só serve para morrer.

Os pobres são pobres de mais,
Os ricos não têm coração

Hão-de rir dos versos do cego
Hão-de rir mas hão-de chorar,
Quem não for Leote do Rego
E tiver pátria a que amar.

Um dia o Sidónio torna.
Estar morto é estar a fingir.
Quem é bom pode perder a forma
Mas não perde o existir.

Descobrimos as terras do fim...

Apanho verdades aos molhos
Sem que ninguém me conheça?’
Tenho a noite em cima dos olhos
Mas não dentro da cabeça.

Toco com as mãos nos muros
Mas com a alma na verdade
Meus dedos para mim são escuros
Mas Deus uma claridade.

Sinto perto o que está longe,
Quando penso julgo que fito,
Meu corpo está sentado (em) hoje,
Minh’alma anda no Infinito.

As cousas que são suaves
Vêm do ar para os meus arranjos.
Só oiço as asas das aves
Mas vejo as asas dos anjos.

Canto às vezes sem dar voz
Como penso sem falar.
A cegueira que Deus me pôs
É um modo de luz me dar.

Quando vou por um caminho
É por dois caminhos que vou:
Um é por onde me encaminho
O outro a verdade onde estou.

Há no fundo dum poço em mim
Um buraco de luz para Deus.
Lá muito no fundo do fim
Um olho feito nos céus.

Ando pelo fundo do mar,
Pelas ilhas do avesso,
E uma cousa que há-de chegar
Tem ali o seu começo.

E pelas paredes do poço
Anda uma cousa a mexer.
Rei moço,
Só ali te posso ver!

Para mim é sempre noite
Mas são outras as estrelas.
Cuidado a alumiar o açoite,
Não lhe fiquem as mãos sem velas!

Vejo o Encoberto voltar,
Vejo Portugal subir,
Há uma claridade no ar
E um sol no meu sentir.

Seu olhar é de rei e chama
Pela alma como uma mão.
Não é português quem não o ama.
Viva D. Sebastião!

Quando os muros forem erguidos
Na terra da maresia
Há-de assomar aos ouvidos
A voz da Virgem Maria.

No seu dia veio o segundo,
No outro dia será o terceiro,
Se o segundo foi para o fundo,
O terceiro será o primeiro.

Vou andando como num cano
Quando olho para lá dos céus,
E não sou de todo humano
Quando vejo o que vejo em Deus.

Há um clarão que passa por diante
De por trás da minha cabeça.

Tu olhas para a tua desgraça,
Pobre mãe, que estás só no (teu) lar?
Pede ao Afonso que faça
Teu filho ressuscitar.

Teu noivo voltou-te cego
Que tinha nos olhos □
Pede ao Leote do Rego
Que lhe vá buscar a vista.

Sem braços para qualquer obra,
Nem podes limpar o choro.
O Norton que te descubra
Dois braços, que podem ser de ouro.

Não amaldiçoes tua sorte,
Se teu filho ou noivo morrer,
Quem o matou foi para a morte,
Amaldiçoa quem □

Cansados de roubar tanto,
Roubaram a vida à gente;
Cada gozo deles é um pranto
Que na face do povo rebente.

As mães vestem luto pelos filhos,
E têm que ir às lojas deles
Comprar o luto pelos filhos,
Que eles venderam como peles.

Nunca tiveram uma mãe
Estes homens que nos venderam.
Quem sofre calcula bem
O que os outros sofreram.

Com as mesas sempre fartas
E dinheiro dos outros a rodo,
Jogam a gente como cartas
Até rasgar o baralho todo.

Pobre de quem é pobre
Que até a vida lhe vão buscar!
Para o Afonso Costa parecer nobre,
E o Chagas não viver do ar.

Não deram por fazerem mal,
Tão trôpegos e desleais
E venderam Portugal
Só para terem um prato a mais!

Já eram ricos e foram
A ser ricos por nós,
E por isso hoje as noivas choram
E os velhos pais estão sós.

Quiseram ter graça no mundo
E venderam o camponês.
Puseram num artigo de fundo
Tudo isto em francês.

Venderam a pátria aos bocados,
Vai tudo para o estrangeiro,
Mandaram-nos como degredados
Para a guerra □

Não é menos que seda o que cobre
A mulher do que □
Não come bacalhau podre
Quem os mandou para a guerra.

A vida já é tão triste.
Não precisa quem faça mais.

A cada braço que cai
A cada vida que é perda,
Como mais o prato □

Um dia há-de vir quem torne.
O Sidónio não morreu.

Porque Deus quando dá aos maus
É a única vez que Deus trai.
Sobe-se por degraus,
Mas também por degraus se cai.

Mas nenhuma desgraça é toda,
Há um fim a tudo na terra.
Acaba o enterro e a boda,
Cansam o gozo e a guerra.

Vela pela gente em Belém,
Está dormindo a sonhar de nós.
Quem é pobre é quem nada tem,
E nós nem temos a voz.

Leio no escuro os sinais
Do Quinto Império a chegar.
O Bandarra via mais,
Mas Deus é que há-de dar.

Anda o povo a passar fome
E quem o mandou para a França
Não tem barriga para o que come
Nem mãos para o que alcança.

Os ladrões já não andam na estrada,
Moram na pele dos ministros.

Pobre era Jesus Cristo
E ainda o puseram na cruz.
De dentro de mim avisto
O Princípio de uma luz.

Não é português quem come
À custa do português pobre.

Nasceram aqui porque tinham
Que nascer em qualquer parte.

Ninguém odiava o alemão.
Mais se odiava o francês.
Deram-nos uma espada para a mão
E uma grilheta para os pés.

Podiam vender negócios
Sem vender a nossa pele.

É inglesa a constituição,
E a república é francesa.
É de estrangeiros a nação,
Só a desgraça é (que é) portuguesa.

Venderam a Portugal
Para ter dinheiro em notas.
Meteram-nos na guerra a mal
Só para termos derrotas.

Não nos davam de comer,
Nós é que éramos a comida,
Para eles poderem viver
Que lhes estorvava a nossa vida?

Metade foi para a guerra,
Metade morreu de fome,
Quem morre, cobre-o a terra.
Quem se afoga, o mar o some.

Meu coração está a estalar,
Minha alma diz-lhe não.
Vejo o Encoberto chegar
No meio da cerração.

Eram dez reis por cada homem
Para o Chagas ter fato novo.
Cada prato que eles comem
É tirado da boca do povo.

Está diante de mim um abismo
Que é a própria cara de Deus.
Quando me deito e cismo
Ando por cima dos céus.

Jesus Cristo e as cinco chagas
E uma escrita no meu coração.
Por mais que se roguem pragas,
O mau há-de ter perdão.

Quando for a comer peixes
Quem se dá bem com o leão
Portugal não mais te queixes
Que volta D. Sebastião.

Logo que a lua mudar
De onde não mostra valia,
No meio do meio do ar
Há-de aparecer o dia.

Sou cego mas tenho vista
Com olhos de ver no escuro.
Falta o melhor da conquista
Que é ver para lá do muro.

Se pego no meu bordão
E o finco na terra sinto
Que onde pego tenho razão
E onde toca na terra minto.

Os lobos guiam o rebanho.
Eles vendem a nação
Para ter □ de sobra,
Mas a minha maldição

Vem do povo como uma cobra.

M…..ram na pia da Igreja,
Escreveram na porta do Paço
É em linha recta de Beja
Que está quem traz o baraço.

Tudo brinca a ser português.

Mas a verdade há-de vir,
O mal há-de ser descoberto
E Portugal há-de subir
Com a vinda do Encoberto.

Não riam da minha praga,
Os que viverem verão
Porque toda a Bíblia acaba
Na visão de S. João.

Hão-de os anjos verter mágoa
Em grande guerra com o mal.
O choro é mais do que a água,
É mais que terra Portugal.

Fizeram lenha do trono
Mas há mais madeira no mundo.

Nem o mar batendo na praia
Faz a bulha que faço em mim
Quando penso que a manhã raia
E a dor de Portugal não tem fim.

Conto as areias do mar,
Conto poucas mas conto certo.
Portugal só não hás-de errar
Com a vinda do Encoberto.

Pode não ser amanhã
Que ele venha

Noite é quando a gente sofre.

Sou cego mas vejo bem
No tempo em vez de no ar.
Goze quem goza o que tem.
A nau se há-de virar.

Na sua ilha desconhecida
O Encoberto já vai acordar.
Inda tem a viseira subida
E o ar de dormir a pensar.

Sou cego e tenho um bordão
Com que bato nas pedras a achar,
Quando vier o suão
Alguém se há-de queimar.

Vejo claro quanto mais deixo
O corpo cego às escuras.
Rogo pragas, mas não me queixo.
As pedras são todas duras.

O fado cantado à guitarra
Tem um som de desejar.
Vejo o que via o Bandarra,
Não sei se na terra ou no ar.

Vejo um grande movimento
Em roda de uma árvore alta.
Das estrelas no firmamento
Há a mais nova que falta.

A preguiça anda de rastos,
Os mortos gemem na cova.
Os gados voltam aos pastos
Quando desce a estrela nova.

Na era de nove e de um
Anda o sol a manobrar.

Há uma música que me sustenta,
E que vem do fundo do céu.
Quem come é que rebenta,
Canta só quem não comeu.

Depois de quarenta e oito
Quando o sol estiver Leão,
Há-de vir quem traga o açoite,
Até os mortos se erguerão.

Dizem que este está maluco
E fala sem ser preciso.
Mãe, se o teu filho está louco
O Norton que lhe dê juízo.

Dizem que falo às avessas,
Noiva, o teu noivo soldado

Eu não quero nenhum estrangeiro,
Francês e inglês é o demónio.
Cuidado com o Terceiro
Que não é o Pimenta ou o Sidónio

Falo na minha guitarra
Só com o meu coração,
Vejo o que via o Bandarra
E no fim há um clarão.

Toco o fado por ter fome,
Canto à noite por estar só,
Sete letras tem seu nome

Minha esquerda é a direita
De quem corre para mim.
Do futuro alguém me espreita,
Portugal não terá fim.

Se tenho frio me aqueço
Só com pensar no Encoberto.

 


[1918-1919]

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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